Outra noite. Nova jornada para o “sono dos justos”.
Estou aqui deitado em minha velha e confortável cama e volto a pensar. Sim, o velho e bom pensamento. Um dos bens mais preciosos do ser humano.
Para que pensamos? Para que vivemos?
“Para alcançarmos a felicidade”, responderiam alguns. Mas, o que é a felicidade?
Vários pensadores, filósofos, e psicólogos, escreveram inúmeros livros, artigos, e teses sobre isso. Como não sou um intelectual, posso tentar meditar sobre esse tema, e o faço sem maiores conseqüências e responsabilidades.
Então, o que é felicidade?
Quando falamos em felicidade associamos conceitos geralmente materiais e ambições pessoais. Mas, essas associações geralmente se prendem a quatro aspectos principais: ao sexo, à afetividade, ao poder e ao conforto material.
Portanto, segundo boa parte da raça humana, será feliz aquele que possuir um ou mais desses elementos acima mencionados. A mulher que busca a felicidade no casamento procura, na verdade, afetividade, sexo, e, dependendo do caso, conforto material. O funcionário que pretende ver a felicidade em uma promoção busca o conforto material e o poder. E por ai vai.
É um erro acreditar que a felicidade está em algum objeto específico, seja ele qual for. Não é o objeto em si que traz a felicidade, mas sim o sentimento que se desperta em cada pessoa por buscar aquele determinado objeto.
A felicidade, portanto, é uma característica, uma qualidade, um atributo do ser humano.
Temos que diferenciar a felicidade de outros estados que lhe são bem parecidos como a saciedade, a tranqüilidade, a satisfação, o conformismo e a simples alegria.
A saciedade é apenas a satisfação das necessidades dos instintos, incluindo aqui o instinto sexual. Os instintos são as forças psíquicas mais poderosas no homem e a sua satisfação é a busca atávica do ser humano. Quando o desejo sexual é saciado, tem-se uma satisfação, um prazer corporal. Contudo tal prazer é fugaz, porque o processo é sempre cíclico. A saciedade, desse modo, se distingue da felicidade justamente por não ser plena.
A tranqüilidade e a busca pela paz não podem ser confundidas com a felicidade. Estar em paz não é ser feliz ou ter alcançado a felicidade. Pode-se estar em paz, mas ser infeliz. Podemos ser tranqüilos, mas sermos infelizes. Na verdade, aqui há uma inversão, tomando-se geralmente a causa pelo efeito. A formulação mais exata é: A felicidade é que gera tranqüilidade.
O conformismo - a resignação - também não se confunde com a felicidade. A renúncia é um estado de omissão, mesmo que tenha os mais nobres sentimentos. Podemos nos conformar com nossa situação de penúria e, ao mesmo tempo, sermos infelizes. Novamente aqui a inversão de raciocínio: A felicidade é que gera a resignação, a renúncia e isto por ser ela um estado pleno.
A satisfação envolve os anseios do ser humano: relacionamentos, trabalho, saúde, êxito pessoal, é demais aspectos normais da vida humana. Estar satisfeito é ter conseguido o fim a que se propôs: casamento, uma promoção no emprego, a cura de uma doença, uma vitória profissional. Por mais que a satisfação traga alegria, ela não traz, necessariamente a felicidade.
A alegria, por fim, reflete bom humor apenas. Sorrimos e rimos, refletindo nossa alegria para os outros. Mas, ao estarmos alegres e sorrirmos não temos, necessariamente, felicidade. Muitas vezes o sorriso é apenas estético e o riso é tão somente uma máscara para encobrir dores e tristezas interiores. Novamente inverte-se e toma-se a causa pelo efeito: a felicidade gera alegria.
A felicidade está acima de tudo isso! É a causa de todos esses efeitos.
Para atingirmos este estado de êxtase, que é a felicidade, temos que abandonar qualquer noção de objeto exterior. A felicidade se busca no íntimo do ser e não no exterior. É um problema íntimo.
E como atingi-la?
O primeiro passo é justamente ter a consciência exata de que o que se procura não está no mundo exterior. Não procuramos alguém, não procuramos algo. Se não procuramos nenhum objeto exterior para sermos felizes, então o valor deles deve ser redimensionado, para não confundirmos a afeição por simples objetos ou pessoas com a própria felicidade.
A partir do momento de que damos às pessoas, às coisas e ao mundo exterior de um modo geral o seu devido valor sem confundi-los como alvos de nossos anseios para nos tornarmos felizes passamos a observar que não necessitamos tanto do mundo exterior, e que ele é necessário, mas não é um fim em si mesmo!
Não vamos em busca de um relacionamento achando que ele nos trará a felicidade absoluta. Não corremos atrás do dinheiro, poder, fama, e outros bens do mundo humano porque sabemos que eles são úteis, têm seu valor para nós, mas não vivemos em busca deles, como se consubstanciassem a própria felicidade.
Com essa mudança de valores, passaremos a observar mais para dentro de nós mesmos.
Onde achar a felicidade, escondida dentro de nós mesmos?
Depois de eliminarmos a busca por um objeto, precisamos definir que a felicidade não está no fim, e sim no processo, na busca, no caminho.
Se a felicidade não está em um objeto no mundo exterior, ela não está no fim, no alvo a ser alcançado.
Esse é o erro central de quem vê a felicidade no instinto sexual. Uma vez saciado, esse instinto se renova sempre. E o instinto sexual visa necessária e imperiosamente à satisfação, ao prazer sexual. Aqui a ênfase é no objeto.
O mesmo se pode dizer sobre quem vê o objetivo da vida na vontade de poder. O poder é transitório, e não perene e absoluto. Então haverá uma busca incessante por poder. E ai parte-se para o eterno retorno da vontade de poder em um ciclo sem fim. Por mais que essa idéia tenha suas bases no instinto mais animal do homem e seja, em parte, coerente, é certo que o homem que busca vontade de poder poderá ser um homem poderoso, auto-suficiente, mas infeliz.
Por que a felicidade não é um fim e sim um meio? Simples. Se ela for um fim, acaba por ter um termo. Exemplifiquemos: Se a pessoa vê no dinheiro a sua felicidade, ela sempre irá querer mais dinheiro, porque a conquista de um determinado valor esgota a sensação de felicidade.
A felicidade é estar em busca de algo. Mas de que forma fazer essa busca?
Alguns pretendem encontrar a felicidade no meio-termo. É uma resposta parcial, pois, ao mesmo tempo em que há como admitir que não exista felicidade nos extremos, é certo que uma pessoa pode ser infeliz caminhando mesmo sempre pelo meio-termo.
O meio-termo é um conceito muito mecânico para se falar em um estado que é basicamente subjetivo.
Sim, a busca se inicia no sujeito, em quem está procurando a felicidade. É nele que está a chave para descobrirmos o meio onde está a felicidade.
Neste ponto surge uma importante indagação: A Felicidade é absoluta ou relativa? Existe uma Felicidade absoluta e geral ou a Felicidade é relativa e pessoal, sendo diferente em cada pessoa?
A resposta me parece ser um pouco complexa. Existe a Felicidade, como conceito absoluto, abstrato e geral e existe a Felicidade, tomada no aspecto individual, concreto e pessoal. São duas acepções da mesma palavra.
A acepção que nos interessa é a pessoal, relativa, individual e concreta.
Essa Felicidade muda de pessoa para pessoa. As pessoas são felizes de maneiras diferentes.
Geralmente a felicidade está ligada ao elemento afetivo-emocional do ser humano. Ela atinge sua sensibilidade em uma região que envolve o amor fraternal, a religião, as artes, o contato com a Natureza, e outras categorias deste mesmo sistema.
Vejo a felicidade, portanto, como uma sensação de plenitude emocional e espiritual.
Houve no passado quem dissesse que a felicidade fosse uma condição negativa. Sim, ela, na maior parte dos casos, é negativa. Contudo, a busca pela felicidade de uma forma mais correta pode ampliar os seus limites transformando-a de exceção para regra.
Como fazer isso?
Imagine-se que uma pessoa ficou plenamente feliz quando contemplou um horizonte belo ao entardecer. O horizonte não foi a causa da felicidade. Ele apenas a despertou. A pessoa aqui deverá procurar sentir a mesma intensidade de emoção em todas as imagens naturais belas que encontrar. É uma forma de expandir a emoção sentida.
E isso pode ser conseguido em qualquer área que envolva sentimentos, pois felicidade é o êxtase do sentimento. É a plenitude do espírito e da emoção.
Todo tipo de sentimento que nos traz uma parcela de felicidade pode ser expandido. Se eu sinto felicidade quando estou trabalhando em determinada tarefa, posso, gradativamente, me sentir feliz trabalhando em todas as tarefas. Se eu sinto felicidade, quando estou com a pessoa amada, posso sentir felicidade quando estiver com outras pessoas também.
A felicidade, desse modo, está, ao mesmo tempo, no sentimento que o sujeito sente por determinado objeto e no processo que o faz sentir daquele modo. Se ele puder transferir o processo para outros objetos, será feliz em outros momentos da vida.
Sendo assim, a Felicidade pode estar em qualquer canto: Quando uma criança brinca com um peão, quando um namorado beija a namorada, quando um escultor termina uma obra, quando alguém ouve uma música, entre inúmeras e infinitas situações possíveis.
Felicidade é um estado psicológico, é um êxtase de sentimentos. Cada pessoa e responsável pela sua própria felicidade, pois somente ela sabe o que a faz feliz. É um caminho individual.
Concluindo, pelo menos por ora, a Felicidade, para mim (simples pensador notívago e quase dormente) surge como um sentimento de um sujeito por um determinado objeto, mas esse processo, essa busca da pessoa pelo objeto que lhe deixa feliz é transferível e ampliável para outros objetos. A Felicidade reside no sentimento que liga a pessoa ao objeto e na busca pelo objeto.
Aos críticos: Sim, deixei questões abertas. Sim, vou prosseguir nas elucubrações noturnas, mas outra noite. Sei que existem várias questões adjacentes que surgem com esses meus pensamentos vagos. Aguardem!
Vocês me acusam de confuso, obscuro e fragmentário. Sim, é assim que sou. Culpa do Morfeu: O sono não me permite prosseguir e embaralha os meus pensamentos.
Coloquem o meu amigo no banco dos réus junto comigo!
Mas, ele vem chegando...
Depois de tantos conceitos e teses, o grande deus Morfeu vem caminhando com sua legião de soldados romanos com uma bandeira dizendo: “Venha para o meio reino. Lá está a Felicidade”.
Talvez ele tenha razão!
Morfeu é um bom camarada
Despeço-me.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
"O Velho e o Rapaz", Opus 08, by Fábio Zafiro Filho
-- Quem somos? Para onde vamos? Eis perguntas cujas respostas sempre são incansavelmente buscadas e nunca encontradas...
-- Cala essa boca, véio
O Bar estava cheio e o velho bêbado – que vinha toda segunda-feira falar sobre filosofia, religião e política - estava deixando todos doidos de ódio.
-- Calar? Quem sois, ó alma negra? Viveis ou apenas imitais os demais? Quem fala o que sabe expõe a sua mente aos outros e você, terá mente a expor?
-- A sua mente deve ser uma mistura de pinga com carne de gato, fedida e podre. Só sai bobagem. Anda, vê se acha o sanatório de onde você saiu e pára de nos atormentar.
-- Pinga? Minha mente tem pinga? Bom, pelo menos tem alguma coisa. Prefiro ter pinga a não ter nada...
-- Fica quieto! —o marinheiro já estava a ponto de levantar do banco e esmurrar o bêbado.
O bêbado riu, cambaleou até a porta e recomeçou seu discurso:
-- Bêbados! Eis a alma do homem: uma alma embriagada de prazeres idiotas, ódios infantis, interesses gananciosos. Homens são a escória do mundo...
-- Você é um deles, pingão...
-- E você também —respondeu o bêbado – mas não tem consciência da espécie que somos.
-- Há homens diferentes. Eu sou um homem são, viril e trabalhador. Você é um fraco, perdulário e perdido...
-- Homem é homem em todo o lugar e todos são fracos...
-- Você vai dizer que é a pinga que os faz fortes?—replicou um rapaz
-- Ela só atenua os sofrimentos... —diz o bêbado.
-- Os seus e os da humanidade toda? Você carrega a humanidade nos ombros?
-- Sou um membro dela... —diz o bêbado, que pára e olha atentamente para o rapaz...
-- E, por isso, pode achar que a pinga consegue atenuar os sentimentos de todos? – continua o rapaz...
-- Pelo menos os meus...
-- É. Vejo que você se dá muita importância, a ponto de poder julgar toda uma espécie. .Quem é você?—prossegue o infatigável rapaz...
-- Bravo, uma briga de intelectuais: um cheirando a pinga e outro cheirando a leite... —grita o marinheiro e o bar todo cai na risada.
O rapaz e o bêbado nem ouviram a bobagem dita pelo marinheiro...
-- Sou um homem amargurado - diz o bêbado.
-- E culpa a humanidade pelos seus erros? Ou pelos erros dos outros? – replica o rapaz.
-- Não culpo ninguém. Só digo que os homens são fracos. São uma escória...
-- Com que legitimidade? Quem é você para julgar toda uma espécie animal somente pelos seus erros e dos que lhe são próximos?
-- Com a legiti... —o bêbado gagueja – titimidade de ser um homem e ter vivido muito...
-- A experiência traz a sabedoria? Mas, qual experiência? A sua? Só a sua? Como pode saber se os seus erros e os seus acertos representam realmente uma síntese dos erros e acertos da humanidade?
-- “Sou humano e nada do que é humano me é estranho” – disse o bêbado, como se falasse uma oração...
-- Grande pensamento, mas não é a resposta correta á minha pergunta. O fato de não estranhar o comportamento alheio não quer dizer que você possa conhecer profundamente toda uma espécie a ponto de julgá-la... — o rapaz para e sugere – por que não procura reduzir o seu julgamento aos homens que você conhece?
-- Todos os homens que conheço são escória... - diz o bêbado, cuspindo.
O rapaz, calmo e paciente, senta e cruza as pernas, bebe um gole do seu suco e prossegue:
-- Seu pai e avô são escória?
O bêbado deu uma risada forçada e diz: “Meu pai é toda a escória e os excrementos do mundo”.
-- Por quê? – questiona o rapaz, fitando os olhos do bêbado.
-- Ele batia na minha mãe e nos meus irmãos. —responde o bêbado.
-- E ele representa toda a humanidade para você? Você acha que todos os pais são iguais? – pondera o rapaz.
-- Não, mas o meu era escória...
-- Não, meu caro, o seu mundo é que é escória... —disse o rapaz, pausadamente.
-- Que mundo? – perguntou o bêbado.
-- Você criou um mundo particular, todo seu, e a ele você reduziu toda a humanidade. Nesse seu mundo estão todos aqueles que te ferraram, que te machucaram, que não te quiseram e também os que te amaram e amam. Neste seu mundo, você é o único juiz, pois ninguém mais sabe sobre os seus sentimentos e sobre a sua vida, seus erros, seus vícios, suas virtudes e sobre o seu passado. Você é o Juiz Supremo. Pode decidir que a humanidade é podre, ou perdoá-la. —conclui o rapaz.
-- Belas palavras, mas não é a verdade, a verdade é que você faz parte de uma espécie falida.
-- Não, a nossa espécie não é falida. É a sua mente que a tornou insípida, negra, salgada, amarga. Aonde os outros sentem o gosto doce, você encontra o fel. A sua humanidade esta falida, a humanidade que está dentro da sua mente.
-- Você é um cretino.
-- No seu mundo, todos os homens que lhe digam que a humanidade é boa ou que a vida é bela não passarão de cretinos. Ora, você já decidiu que a humanidade deve ser condenada, sem recursos, sem piedade, sem misericórdia. Foi você quem acabou com o mundo e não os homens.
O bêbado sentou no chão e disse:
-- Os homens me ferraram e a vida os ferrará. Os homens são o fim.
-- Não seja tolo! Você pode combater tudo. Basta ter consciência disso. Não seja mais um pobre diabo.
-- Não sou um pobre diabo. A humanidade que é a praga, a erva daninha...
-- Meu caro, -- diz, calmamente o rapaz, pondo a mão no ombro do bêbado – e o que você é?
-- Já não sou mais ninguém.
O bêbado acaba dormindo e o rapaz sai do bar depois de tomar o seu suco. Deixou algum dinheiro para que os marinheiros levassem o bêbado para sua casa.
-- Todo esse dinheiro só para levar um idiota desses para casa. Devia é largá-lo no esgoto — resmunga um marinheiro contando o dinheiro.
O dono do bar ajuda a tirar o bêbado do bar e, ao fechar as portas, diz:
-- Levem esse pobre diabo com cuidado.
-- Por quê? E ele lá merece? – responde o marinheiro
-- Merece sim. Ele é o pai daquele rapaz. Vive perambulando pelas ruas. Era um bom homem e bom funcionário público, mas se enterrou no vicio. O filho tem pena dele, mas, o máximo que ele consegue é discutir com o pai bêbado e dar dinheiro para levarem-no para casa.
-- Ele é um bom rapaz —reconhece o marinheiro – mas, por que ajudar um pai que quer ver o mundo pegando fogo?
-- Porque o pai, todo dia, vai ao cemitério. E quando se depara com o túmulo da mulher, volta para casa chorando e diz ao filho: “O meu mundo era ela, hoje o meu mundo é o inferno” e sai para os bares, pregando e discutindo, atacando a humanidade, Deus e os políticos Isso acontece todo santo dia e cada dia da semana ele discursa em um bar diferente. Amanhã será no Bar do Neco, ali na esquina...
-- Ao chegarmos na casa do rapaz, devolverei o dinheiro – disse o marinheiro, com lágrimas nos olhos – ele precisará mais do que eu.
-- Você é um bom homem e agora pegará seu barco e irá embora, mas, a vida para o rapaz será sempre esta. Consegue imaginar?
As lágrimas foram sufocando o pobre marujo.
E foram andando, carregando aquele velho sujo e fétido pelas ruas do porto naquela madrugada de maio. O marujo ia chorando e o dono do bar contando outras histórias daquela família. Os demais seguiam em silêncio.
sábado, 10 de julho de 2010
"As Crônicas de “J”, Opus 07, by Fábio Zafiro Filho
1 ---
A você, meu caro colega, que irá ler essas bobagens, não pense que vai ler uma crônica de um autor de crônicas qualquer. Sou um escritor especial.
Trata-se apenas de uma crônica da vida urbana.
Não pense que irá encontrar algo agradável, porque eu não sou nem ao menos tolerável.
É uma história e nada mais. Quem sabe se é realmente uma crônica? Afinal, o que é uma crônica? Quem liga para rótulos?
Resolvi ser mordaz. Mostrarei a realidade!
O título é realmente uma bosta: “O Caminhante da Noite“. Poderia ser a história da vida de um guarda noturno, ou a saga de um vampiro. Rótulos novamente.
Chega de frases inúteis!
20.03.1985
J.
O Caminhante da Noite
Ele sai de casa para entrar no domínio da noite da CIDADE.
Pede permissão.
E começa a sua longa jornada de encontro ao organismo vivo da noite urbana.
A noite é fria e lhe abraça. Ele a rejeita como rejeitara na noite anterior o afago da puta.
Ele foge de algo que pensa que sabe o que é, mas ... bem ... é melhor nem pensar... Só andar, andar e andar.
Na primeira esquina, surge a primeira dúvida. Um ônibus pára e dois idiotas gritam como dois apitos em forma de cretinos. Por quê?
Deve haver motivo para o grito e para a existência dos cretinos.
Motivos? Quem precisa deles?
Continua a caminhar...
A cidade avança dentro do seu cérebro. Os prédios vêm marchando, como se fossem duas fileiras de soldados gigantes. Os carros parecem cargas elétricas desordenadas. As pessoas, reles formigas. O mundo vive e a noite impera.
O caminhante filosofa e cria suas poesias medíocres, que poderiam ser escritas por qualquer bêbado criado na noite urbana.
Tiros?
Uma formiga humana cai morta na sua frente. O sangue inunda seus pavilhões auriculares. Ele vê, então, o que sobrou do que um dia foi alguém.
Dor?
Não sente pesar. É só mais um evento comum na noite urbana.
O caminhante volta a andar. Só observa. Não questiona.
A cidade vive e a noite domina. Que pode ele fazer sobre isso?
Putas...e mais putas...
Travestis: homens que são mulheres. Atentado contra Deus? Pode até ser, mas não é atentado contra o domínio da noite.
Dor? Pobreza?
Mendigos...os excluídos...os inválidos.
Moeda? Tome-a... Para comprar o que comer....ou.....o que te faça esquecer.....A noite te dá....te toma.....te mata.
Estrelas... A Lua... Meras luzes da Noite... Meros reflexos do que foi o dia. A noite é bela, mas pode ser suja... Depende dos olhos que a enxergam.
O caminhante não compreende a noite. Ele somente observa os seus elementos. Mas, Filosofia é coisa para gregos e alemães.
A noite é bela? Pois bem, que seja! .A cerveja e a pinga transformam as mentes, e deixam as pessoas românticas... Poesia é uma brincadeira para bêbados, intelectuais e professores.
Caminhante não é filósofo e nem poeta. Ele apenas observa... E só.
Sexo...
Homens e mulheres em busca de satisfação corporal e, talvez até, romântica...
O caminhante prossegue a caminhada
Homens amando homens? De novo?... Não... Nada contra. É a vida... Hormônios... Intelecto... Só quem pensa pode assumir uma opinião, seja ela qual for...
Sexo e dinheiro... Seria podridão? Talvez
Sexo, dinheiro e necessidade fazem a podridão virar uma atividade profissional!
Sexo... Homens e mulheres... Terrores da noite?
Casais se amando! Naturalidade... Uma beleza escondida na noite urbana.
A noite avança sobre o caminhante.
Drogas! Território podre.
Fumo?
Pó?
NÃO. Melhor andar e observar... Assim se exercita o cérebro e o espírito.
Fugir? Não, o melhor é caminhar... Gera frutos.
Esquecer? Também não... Apenas observar... E acabaremos sempre por nos lembrar de tudo.
A jornada está no fim.
O caminhante retorna para sua casa.
Viu, ouviu, mas... Não sentiu.
Os sentimentos aflorarão... Depois.
O caminhante entra em casa, fecha a porta do quarto, senta, e chora.
Depois, raciocina, levanta e ri... A noite é uma educadora natural da alma humana...
2....
Anseios de um monstro! É isso que este texto idiota quer mostrar. Nada além disso.
O monstro faz e quer continuar a fazer. O Mundo não aprova sua conduta, mas, para ele, sua conduta é a sua própria vida.
Sexo. .Monstros também gostam disso.
Escrevi esta porcaria, depois de ler alguns artigos policiais podres e deprimentes. A merda quando entra na mente de um escritor tem que sair de algum modo. Temos que expelir a excrescência lida nas reportagens policiais.
Quero mostrar-lhes o que eu li e senti Vocês sentirão o caos tomando conta de vossas almas...
Exagerei bem o caso justamente PARA CHOCAR.
Venham.
Eu vos espero.
É fácil: basta ler... Não há como perder... No mundo das taras nós vamos entrar..
Não há como compreender!
Deixe a sua consciência de lado antes de prosseguir.
Natureza bestial ou selvageria consciente?
Pobres crianças!
12.09.1987
J.
VELHO DEGENERADO OU CRIANÇAS PERDIDAS?
Sr. Arnaldo.
61 anos
Sensato, educado, culto, limpo, classe média, homem de sociedade, professor primário.
Durante mais de cinco anos manteve secreto o seu lado hediondo e safado. Era o homem mais sexuado do bairro.
Tinha a maior quantidade de parceiros sexuais da cidade.
De ambos os sexos, de 12 a 14 anos. Todos eram alunos seus!
Cumplicidade?
Corrupção de Menores?
Toques, carícias, lambidas, chupadas, penetrações, sensações. O Sr. Arnaldo era o rei do sexo... Era o Senhor Sexo
Escrúpulos? O Sr. Arnaldo achava que o que fazia era parte da educação dos menores.
Aulas suplementares = Aulas práticas
Delegado: O senhor fez sexo com todas estas crianças?
Sr. Arnaldo: Lógico, sou o professor delas.
Delegado: Mas, sexo com crianças é crime...
Sr. Arnaldo: Eu sei... Mas era para o bem delas.....
Crianças desavergonhadas ou velho sedutor?
Pedofilia incontrolável?
Todas as crianças o veneravam... Tinham-no como ídolo. Para eles sua palavra era a lei suprema.
O sexo era a aula.
A matéria era dada por completo, sem restrições. Curso completo com direito a diploma, Mestrado e Doutorado.
Sr. Arnaldo era Mestre incontestável em sexo infantil, Doutor em estupro, PHD em corromper menores para fins ilícitos e imorais.
Poucos alunos escaparam dessas aulas práticas.
Alguns gostavam, outros tinham nojo, outros ficaram com problemas mentais por causa das aulas e algumas alunas tiveram filhos. Mas, estes foram casos raros. Somente três: coisa pequena.
Dores? Sim
Constrangimento? Em parte...
Coação moral. Os meninos e meninas faziam os atos por vontade própria mediante uma certa ameaça ou fraude.
O Sr. Arnaldo falava para os alunos que era um tratamento, uma aula prática, brincadeira, punição, ou outra desculpa idiota qualquer...
Monstro ignóbil, velho safado, viado, cretino. e todos os demais palavrões conhecidos e desconhecidos. E mais alguns ainda.
Selvagem, sedutor, louco e ardiloso.
Seu crime não tem classificação.
Punição?
Nem isso ele teve.
Pouco antes de ser preso, o velho se mata com um tiro no pênis.
Ironicamente acaba com sua própria punibilidade e destrói a “arma do crime”.
Seria uma última piada por parte do tarado? Talvez...
Mas, quem pagará os estragos feitos?
Vidas prejudicadas, danos mentais irreversíveis.
Dores e seqüelas para o resto da vida.
Velho tarado?
Pobres crianças!
O sexo verdadeiro já não existe...
O que existe é o desejo carnal incontrolável, sexo com qualquer um e a qualquer custo, mesmo contra a moral, a decência e contra a liberdade sexual.
Viva a humanidade!
Viva o sexo!
“Que o orgasmo seja o fim, e que sejam justificáveis todos os meios para consegui-lo “ este parece ser o “slogan “ de nossa época.
Deus nos perdoe
E as crianças também.
Aprendamos com elas. Talvez assim possamos construir algo decente...
Infantes deste mundo, salvem-nos da indecência humana!
3.
Não sei por que escrevo essas coisas. Talvez por mero deleite. Ou para descarregar algo que tenho preso dentro de mim.
Afinal, para que se escreve? Para comunicar? Sensibilizar? Emocionar? Não sei.
Existem momentos em que se tem vontade de se colocar tudo pra fora, como se fosse um vômito, um espirro, ou um catarro.
E esse “tudo“ que se põe para fora se transforma em histórias idiotas ou boas, poemas, filosofias ou bobagens, que é o que eu escrevo. Grandiosas bobagens!
Um poeta alemão, Heine se não me engano, dizia que das suas grandes dores fazia pequenas poesias. Acho que sigo esse caminho. Só que o meu problema é que absorvo as dores alheias e isso me faz sofrer demais e escrever bobagens, não poesias.
O que escrevi aqui é mais uma dessas bobagens. Já escrevi coisas parecidas e creio que as chamei de crônicas. Escrevo outra destas porcarias indecentes agora.
Não sei definir bem o que escrevi. Quando escrevo, é como se fizesse sexo. Aquilo sai de uma vez, sem qualquer censura ou domínio da minha parte.
Esta porcaria deve ser útil para alguém... Sei lá.
Escrevi... Não sei se serve para algo...
Sem data
J..
O SONHADOR DA SABEDORIA E DA CULTURA
Genésio teve um sonho
Estava em um local estranho. Uma cidade.
O mundo era inverso: Os mendigos e pobres eram cultos...
Andava na rua e via cenas incríveis:
Um mendigo aqui tocava violino enquanto outro o escutava e falava: “Prefiro o 2 º movimento “.
Um outro dizia em voz alta: “Será que alguém pode me emprestar um livro. Pode ser um clássico de Platão, um romance de Goethe ou poesias de Tennynson.“
Genésio estava certamente bêbado
Mendigos falando de Goethe e Platão?
O violinista chega perto e lhe pergunta: Prefere Beethoven ou Paganini?
Genésio disse que preferia Paganini.
O violinista começou tocar somente de brincadeira uma mistura do “Moto Perpétuo” com trechos da Sétima e Nona Sinfonias de Beethoven.
Genésio achou aquilo uma loucura.
Pediu para o violinista tocar uma música de Mozart.
Este prontamente o obedeceu.
Do músico, Genésio passou a ouvir uma discussão literária.
-- Não concordo. Para mim Alencar não é tão bom autor – falava um pobre diabo vestido somente com um calção e uma camisa repleta de furos e cheirando muito mal.
-- Alencar é o mais brasileiro dos escritores. Sua obra é cheia de referências aos índios e pessoas humildes que são a base do povo brasileiro – rebatia uma mulher de seus sessenta anos, com um rosto cheio de rugas e toda encolhida em um canto.
Aquilo era demais!
Atravessando a rua, Genésio vê uma pessoa que mais parecia um espectro.
Era um fantasma?
Não, era uma criança de oito ou nove anos, toda nua, magra, quase esquálida.
Estava tocando saxofone, como um verdadeiro mestre do Jazz.
Aquilo era loucura demais junta em um mesmo lugar.
Genésio resolveu ir para uma ponte.
Subiu na amurada.
Olhou para baixo. Era um rio.
Pulou.
Mergulhou.
Nadou até a margem. Tinha que lavar seu corpo e mente daquele mundo doido.
Quando saiu da água, viu um velho de grandes barbas e cabelos brancos, como uma espécie de Papai Noel.
Estava vestido de branco e sentado em uma pedra.
Pensava.
Meditava.
Genésio foi até ele e perguntou:
-- Em que pensa, meu senhor?
O homem vira a cabeça para ele, sorri e responde:
-- A água do rio em que pulaste é límpida e fresca. Já pulei inúmeras vezes nela. Seu pulo me fez pensar nas águas.
-- Lembras ainda como era o rio antigamente?
-- Rio? Não. Já pulei nas águas de um rio mas não falo destas águas. Falo sobre as águas do céu. Este céu em que você pode nadar nadar, nadar sem nada alcançar. Não há limites. Se o que falo é loucura? Não. Estas águas existem e são a essência da vida.
-- Já mergulhaste nestas águas do Céu?
-- Aguardo minha hora e vez. Espero esse mergulho, como uma pessoa que subiu milhares de degraus de uma escada bem íngreme e se depara, no último degrau, com uma porta, sendo que se pode ver a luz passando pelas frestas do outro lado para o lado de cá. A porta esta fechada. Espero que abram.
-- Mas o senhor quer seguir adiante?
-- E quem não quer? Corpo cansado, memória fraca, ninguém se importa mais comigo, o que posso esperar mais destas águas daqui? As de lá de cima são mais profundas e belas.
-- Se já sabe como elas são, porque não arromba a porta?
-- A porta se abrirá. Para que arrombá-la? Sinto-me como se tivesse uma grande trilha pela frente e o que me impede é só uma parede de vidro, que se torna mais fina com o passar dos anos.
-- Pode me dizer quem sou, quem és e onde estou
-- Você é um sonhador, eu sou tua alma e está dentro do seu sonho.
-- Você é minha alma?
-- Sim.
-- O senhor falou que pulara em um rio. Não me lembro de ter pulado em rios na minha vida.
-- 17 anos. Férias, verão. Lembra-se?
-- Sim, agora me recordo. Você é o meu subconsciente?
-- Não. Sou o seu Consciente contemplativo. E você é o Consciente impulsivo.
-- Quem são os mendigos?
-- Seus outros Eus.
Genésio se levantou.
-- Desculpe vovô, mas detesto piadas.
-- É pena. Adeus.
Genésio apagou.
Genésio acordou
Levanta-se e pensa demoradamente.
Olhou-se no espelho: 30 anos de idade.
Olhou para sua mesa vazia e sem alegria.
Tinha que tomar uma decisão rapidamente.
Pegou o lençol da cama.
Fez o laço
Enforcou-se!
Morte demorada.
Felicidade completa?
Ou o início da caminhada?
Ou então o fim do desespero?
Ou ainda, o começo das Trevas?
Velhos, moços, todos somos insanos.
A vida é chata...
Que importa afinal?
Quem liga, afinal?
4-
Delírios! Eu só escrevo bobagens mesmo...
Sonhos de um alucinado que não sabe o que quer e aonde quer ir. Vê o que ninguém vê. Sente o que outros não sentem.
Esses textos modernos que contém referências a drogas, alucinógenos e coisas do gênero pouco me agradam. Prefiro os loucos e as loucuras normais.
Quem precisa de alguma planta, pó, ácido ou coisa parecida para ver, sentir algo diferente é um tolo. Para sentir algo novo e diferente basta fechar os olhos e criar. Criar, essa é a palavra chave.
Resolvi juntar um monte dessa baboseira alucinógena em um único texto imbecil.
Acho este texto uma porcaria inominável. Dei o nome de Delírios somente para colocar um nome.
Confesso que a loucura, em si mesma, me atrai. Cada pessoa tem um toque de anormalidade.
Afinal, todos nós somos anormais.
Eu, pelo menos, sou o cúmulo da anormalidade. Prefiro mil vezes ser anormal a adotar a normalidade irritante dos nossos dias.
Se Deus é anormal, por que eu devo ser normal?
Gostem ou não é isso o que sou: um anormal, um imperfeito, um doido, num mundo normalmente louco.
Sem data
J
DELÍRIOS DE UM ALUCINADO
Acordou. Teve um sono muito pesado.
Ele se levantou da cama. Boceja.
Olhou para a porta do quarto, que, naquele instante, parecia estar a uns cinco quilômetros de distância.
Dirigiu-se então para a porta
Deu um passo, e a porta parecia que se afastava dele.
Deu outro, e ocorreu, novamente, o mesmo.
Ele achou que estava ficando louco.
A única solução seria um pulo e Ele acaba pulando e agarrando a maçaneta da porta.
Estava um pouco nervoso. Acalmou-se.
Ele tenta abrir a porta, mas a maçaneta se desfaz na sua mão. Parecia feita de... Chocolate? Sim, era de chocolate. Ele acaba comendo a maçaneta. Estava com muita fome e a maçaneta lhe pareceu muito apetitosa.
Ele resolveu, então, arrombar a porta. Deu um pontapé e a porta se desfez em pó.
Então Ele pôde ver o que havia do outro lado daquela porta: uma grande rua asfaltada. A porta conduzia diretamente para uma rua asfaltada.
Ele não compreendeu, mas prosseguiu e pisou na rua, notando que a mesma estava deserta, sem ninguém por perto.
Na rua, somente viu leões, cães, gatos, feras andando, tomando conta daquela Cidade fantástica.
Ao seu lado direito notara a presença de uma esfinge de pedra que rosnava olhando fixamente para ele. Uma estátua de uma deusa grega antiga começou a dançar bem na sua frente. Primeiro ela deu passos de samba, depois iniciou uma dança parecida com a dança do ventre e começou a se despir.
Ao seu lado esquerdo viu uma estátua de bronze fazendo ginástica.
Começou a caminhar novamente.
Ouviu gritos. Uma pessoa caiu de um andar de um prédio logo a sua frente. A pessoa caiu no chão e, ao invés de se ferir, começou a pular como se fosse de borracha até parar ao lado dele, sorrindo: Era uma menina de uns seis anos de idade.
Ela olhou para ele e saiu pulando de novo, como se fosse uma bola de tênis.
Ele olhou para cima do prédio de onde a menina tinha caído e não conseguiu ver o último andar. Parecia ser um edifício alto demais. Ficou curioso!
Esse prédio ficava do outro lado da rua.
Ele olhou para a rua. Passou um carro bem na sua frente. Era um Chevrolet daqueles bem antigos, mas, vinha puxado por seis cavalos. O motorista ia ao volante, dirigindo, enquanto uma passageira saia pela janela chicoteando os animais.
Atravessou a rua.
Olhou para a entrada do prédio. Parecia a entrada de um grande hotel de luxo, tendo um manobrista e um porteiro, os dois vestidos de azul escuro e dourado.
Entrou no hotel, e, dentro deste, o ambiente se transformara abruptamente: Na rua parecia um hotel cinco estrelas e dentro era um mero e singelo açougue.
Olhou para a geladeira que existia logo na entrada onde se exibiam muitas carnes e, para seu espanto, notou que havia também uma cabeça humana que começou a sorrir para ele.
Saiu daquela parte do açougue completamente atônito. Dirigiu-se até uma porta onde estava escrito “Congelador “ em letras de cor lilás.
Abre a porta do tal Congelador e viu, em seu interior, três moças muito bonitas e bem arrumadas, que lhe perguntam: “Vai subir?“.
Era decididamente um elevador.
Ele entrou.
O elevador começou a subir.
Subiu doze andares e parou.
Uma das moças disse: “É o nosso“ e abriu a porta.
As três moças saíram. Ele não conseguiu ver o interior do andar. Estava muito escuro.
A porta se fechou
O elevador retomou a marcha.
Ele começou a reparar no mostrador eletrônico que existia acima da porta: 14... 15... 16... 17...
O elevador foi acelerando
26... 40... 60
Acelerou mais ainda. Ele se grudou à parede.
90... 160... 200... 290... 367... O elevador começou a parar.
412... Parou
Ele abriu a porta do elevador e entrou em um hall, todo decorado com carpete de cor de vinho, com paredes revestidas de madeira nobre, tendo um quadro com o rosto Dele mesmo na parede da direita e um desenho pornográfico na parede da esquerda. Na sua frente havia uma porta de madeira bem escura e, bem ao lado desta, uma mesinha com um livro, provavelmente de presenças.
Ele abriu e folheou o livro onde notou a existência de inúmeras assinaturas estranhas e nomes como Einstein, Nero, Planck, Blake, Poe, Milton, Dante entre outros tantos.
Assinou o livro e abriu a porta, muito curioso.
Era um gigantesco salão de baile.
Era uma reunião indescritível. Todos estavam vestidos com roupas do século XVIII e bebendo muito vinho servido em copos plásticos. Algumas pessoas dançavam, no centro do recinto, ao som de uma orquestra de câmara com cerca de trinta violinos além de outros instrumentos do século XVIII, mas que, para seu espanto, tocava samba e frevo.
Ele não sabia o que fazer ou para onde ir.
De repente, alguém parece que está o chamando.
-- Vem cá – disse uma moça de uns vinte e cinco anos, vestida como uma condessa – chegou atrasado.
Ele estava pasmo.
-- Sei que está deslocado, pois você não conhece ninguém aqui – disse a moça, como se o conhecesse há vários anos.
Ela toma-o pelo braço e começa a andar com ele pelo salão.
Ele nota outras coisas interessantes.
Existiam vários ambientes naquele baile, mas todos eles juntos no mesmo salão: Aqui temos um grupo de homens que jogam cartas, mais adiante três velhos cantavam canções em uma língua que ele desconhecia, um outro grupo dançava, outros discutiam filosofia, artes, ciência e outros assuntos mais. Parecia uma confusão total, uma festa sem qualquer controle. Uma Torre de Babel.
A decoração era pavorosa e absurda: um lustre com tons de rosa, verde-escuro e marrom pendia do teto, velas de todas as cores estavam espalhadas pelo salão, havia nas paredes quadros de inúmeras pessoas desconhecidas, quatro retratos Dele mesmo, vários quadros com cenas de pornografia explícita e quadros de mulheres e homens completamente nus. Havia também várias estátuas de criaturas monstruosas, uma estátua do Imperador Romano Augusto urinando e coçando as nádegas, várias peças de porcelana com figuras de desenho animado como Mickey, Pluto, e Popeye. Era uma loucura completa
Em um canto havia um jovem casal fazendo sexo e um grupo de seis ou sete pessoas, ao redor deles, fazendo apostas.
Havia certas cenas completamente absurdas: um cavalo conversando com um menino de sete anos sobre as Guerras Púnicas, uma estátua de um guerreiro persa declamando Hamlet, um casal dançando sem roupa, seis senhoras de cerca de noventa anos cada uma numa conversa séria e compenetrada sobre a origem do sexo grupal, dois meninos dando facadas em uma menina que, a cada golpe que recebia, morria de rir.
-- Que significa isso tudo? – Ele perguntou.
-- Você criou tudo isso – disse a moça.
Ele pensou durante algum tempo
-- Eu criei você também? – perguntou Ele.
-- Não totalmente, eu também faço parte da sua vida real, mas você não me conhece ainda. Depois que sair desse Mundo, você irá me encontrar – respondeu a moça e continuou – só lhe dou um conselho: Não leve tudo isto a sério e não se apegue a nada do que está aqui incluindo eu. Vou acabar sumindo de uma hora para outra.
-- Por quê? – perguntou
-- É assim. E não se assunte se me ver morta por ai, ou fazendo qualquer coisa de desagradável. Você irá me ver de qualquer modo depois, do jeito que sou. Ponha isso na sua cabeça!
-- E o que eu faço agora?
-- Aproveite o ambiente! Nada poderá te acontecer de mau.
Ele resolve, então, testar o local onde está.
Olha para uma moça que está ao seu lado e fala:
-- Quem é você?
Ao que responde a moça com uma voz bem masculina e tirando uma pistola de brinquedo de dentro da bolsa de palha:
-- Sou Carlão, seu criado. Quem quer que eu mate?
Volta-se para a moça vestida de condessa, mas ela já tinha sumido.
Virou-se para trás
Olhou para um quadro pornográfico que estava na parede bem a sua frente. Era um sexo grupal com, pelo que Ele conseguiu contar, umas doze pessoas. Ele chegou perto da pintura.
No que ele pôs a mão no quadro, uma das figuras do quadro, um homem já idoso, vira-se para ele e diz:
-- Não se pode mesmo ter privacidade, né?
E fechou uma cortina azul que encobriu o quadro todo. Ele ainda ouviu uns gritos vindos de dentro do quadro e expressões como: “Safado“, “Não tem mais o que fazer?”.
Ele começou a se divertir com aquela história toda.
Chegou perto de um grupo de senhores com caras de homens importantes. Parecia que eram os únicos sãos ali.
Mas, Ele estava errado, os tais homens estavam brincando como crianças, ora de esconde-esconde, ora de bolinhas de gude. Pareciam débeis mentais.
Olhou para o lado, e viu uma cena muito interessante: uma moça e um rapaz conversavam animadamente. Ele já até esperava que deveria ser algo absurdo e fora do comum.
Ambos conversavam normalmente sobre amizades, bailes, música, pareciam normais.
Ele se afastou.
Foi quando viu onde estava toda a loucura da cena: O rapaz e a moça haviam se despregado de dois quadros. Eram duas pinturas. Os quadros que os originara estavam com um espaço branco, de onde saíram os dois.
Vira-se e começa a andar pelo salão.
Passou por uma janela por onde entravam raios de sol. Resolveu ver a paisagem. Ele nem se assustou quando viu, por esta janela, uma bela enseada com um imenso mar bem adiante, além de gaivotas, e um pescador logo na frente da janela conversando animadamente com um albatroz.
Seguiu adiante e viu um armário.
Notou que havia ali uma coleção de livros. Puxou um volume. Era em latim. Ele entendia um pouco desta língua, mas não entendeu nada do que estava escrito no livro, pois cada vez que virava a página as letras se alteravam. Em uma das vezes que virou a página, todas as letras fugiram correndo da página da esquerda para a da direita, deixando apenas um ponto solitário na outra página.
Guardou o livro.
Era tudo fascinante. Ele se sentia como em um desenho animado.
Resolveu sair do salão. Viu uma porta.
Abriu.
Saiu para um novo local: Era uma área ao ar livre.
Era uma rua, uma viela daquelas cidades da Idade Média. Era um pouco escura e estava completamente deserta.
Andou por ela até o fim e chegou a uma praça.
Tinha uma Igreja.
Estava tudo muito quieto.
Havia casas, todas com as janelas fechadas. Havia aqui no muro ao lado da Igreja um retrato de John Lennon, e abaixo estava escrito: Vote no melhor. Era um cartaz político.
Não havia nada na Rua, além de muito pó, papel picado, várias moedas e alguns pneus velhos.
De repente, Ele vê um grupo andando. Eram sete pessoas, todas vestidas de preto e de capuz, carregando um caixão aberto, com uma mulher dentro dele.
Ele não conseguiu ver a mulher direito.
O grupo seguia para a Igreja. Pareciam Padres ou Monges.
A cada dois ou três passos, um deles dava um urro bem alto, como se tivesse tropeçado ou levado um chute.
Na metade do caminho eles se puseram a cantar, com vozes de cantores líricos, a música “Come Together” dos Beatles..
Quando chegaram perto da porta da Igreja, pararam e jogaram o caixão no chão, como se fosse uma mala de viagem muito pesada.
Silenciaram e ficaram em fila como um grupo de soldados.
Só ai que Ele percebeu que a mulher no caixão era aquela mesma moça da festa. A tal Condessa.
Ele se desespera.
Não sabe o que faz.
Pensa e reflete.
Ela mesma tinha dito para Ele não se assustar se ela aparecesse morta. Então, Ele deduziu que ela já sabia o que iria ocorrer.
Ele chegou à conclusão que aquela cena também era uma parte do seu Sonho ou parte daquele Mundo cretino. Começou a rir.
Aproximou-se dos sete homens que estavam de capuz e tirou o capuz de um deles, o que acabou desmanchando toda a roupa do homem e acabou por deixá-lo totalmente nu.
O homem era oriental, eunuco e aparentemente mudo. O oriental entrou em desespero e começou a latir.
De repente Ele ouve gritos, algazarra. Uma multidão vem caminhando para o centro da praça gritando.
Em poucos instantes a praça é tomada e ele vê um grupo de pessoas levando um homem para uma espécie de palanque. Ele olhou melhor e reparou que o homem iria ser guilhotinado.
As pessoas levaram o infeliz para o local da sua punição.
Um Padre fala em alto e bom som: “Chamem o Carrasco“.
Ele vê o Carrasco chagando e começa a rir. O fulano é um anão, magro, sem dentes, feio, corcunda, manco, e com mais uns doze defeitos. Não dava para saber se era um homem ou um orangotango.
O Padre fala: “Antes, uma palavra do nosso patrocinador “
Ele acha que o padre ficara louco.
Logo depois do anúncio do Padre, entram seis adoráveis moças cantando uma música publicitária sobre as “Guilhotinas Luiz XIV“. As seis moças traziam nas mãos duas cabeças de pessoas guilhotinadas, que também cantavam.
Depois desse interlúdio comercial, o Padre disse: “Agora a Cerimônia da entrega da Chave do Céu para o futuro defunto, o que será feito pelo nosso Prefeito“
Nisso entra um menino de cerca de dez anos de idade com uma chave de prata na mão, vestido de terno e gravata.
Ele entrega a chave para o rapaz.
Então o Padre fala: “Comecem a cerimônia “
Nesse momento o público se afasta e entra um homem grisalho de fraque, e começa a cantar o hino dos Estados Unidos.
Depois, entram dois homens e sentam ao lado do Padre, ambos com microfones nas mãos e começam a narrar o evento.
Ele se acha logicamente no meio de um circo.
Começa um dos narradores: “Grande público hoje aqui na Praça Central veio prestigiar o grande evento da semana. O grande clássico das Execuções: a morte do assassino de Dona Ana. É uma execução há muito tempo esperada...”.
O narrador continuou, falando do tempo, das condições físicas do Carrasco, que havia sido cortado na semana passada e tinha ficado no banco, do Padre e de todo aquele circo...
Ele resolveu sair daí.
Dirigiu-se à Igreja e entrou.
***
Dentro da Igreja, passou Ele para um outro ambiente: Era um quarto branco.
Agora sim, Ele parecia ter realmente acordado de um sonho. Estava deitado em uma cama.
-- Oi – disse uma pessoa que parecia estar a sua frente.
-- Quem é você?
-- Sou sua enfermeira.
Quando abriu os olhos, viu que era a condessa com quem tinha conversado no sonho.
-- Mas eu conheço você...
-- Talvez. Você fala muito quando dorme. Eu discuti muito com você dormindo.
-- Então era isso...
-- Eu acho que devo ter até influenciado no seu sonho, né?
-- É, mas o que eu faço aqui?
-- Você operou um tumor no cérebro, lembra?
-- Isso parece que foi há dois séculos atrás.
-- Gostou do sonho?
-- Claro. Você estava nele...
-- Eu sei... Mas agora é a realidade que é muito diferente.
-- Você sabe o que se passou comigo?
-- Não. Tudo é sua ilusão, mas eu acho que podemos conversar isto quando você quiser depois que você se curar em um jantar. O que você acha ?
-- É um convite?
-- Sim.
***
Daquele sonho todo Ele só conseguiu se lembrar da existência da Condessa, que é o que realmente lhe importava em todo o Sonho. Seu inconsciente se apaixonara pela enfermeira e a transformara, em seu sonho, em uma condessa, ou seja, Ele já estava apaixonado por ela muito tempo antes do seu Consciente conhecê-la na realidade. E o mais interessante de tudo: Seu amor era correspondido...
Nada mais estranho que a mente humana e as relações humanas. Nada é tão estranho quanto viver. A estranheza é parte da vida, sem ela a vida perde a sua graça.
-- Isso faz parte do sonho? – pergunta Ele
-- Sim, mas agora é a parte real dele – disse a enfermeira e ex-condessa.
sábado, 3 de julho de 2010
"Nada mais é como antigamente", Opus 6, by Fabio Zafiro Filho
Era final da madrugada. Ouvem-se batidas na porta.
Serena abre a porta e seu marido entra em casa, cansado.
- O que foi, meu amor? Perdeu a chave?
- Acho que sim.
Valério senta-se.
- Você está realmente um caco. Relaxe um pouco – diz Serena
- Vou tentar.
Valério estava realmente deprimido. E isso já tinha algumas décadas. Sua vida era anormal. Era evidente. Não tinha como ser de outro modo. Mas, ele se questionava se tinha mesmo sido certo deixar-se levar por aquele momento, naquele passado remoto, quando resolveu se casar e ter filhos.
A situação de Valério pode parecer ao leitor, assim de inicio, comum. Uma pessoa normal, com problemas normais. Mas, não é bem assim. Há um ponto nessa história que precisamos esclarecer, senão toda a história não fará o menor sentido: Valério é um vampiro
Sim, meu caro e incrédulo leitor. Vampiro. Como o velho Drácula das histórias do cinema, mas só que Valério vivia a vida real e não na fantasia das telas.
Ele veio pra casa correndo porque já ia amanhecer e vampiros vivem somente à noite. Isso não é lenda não. É a mais pura verdade. Se eles permanecem acordados de dia podem morrer. Contudo, as causas dessa morte por ficar ao sol são mais reais: câncer de pele, que é fatal para um vampiro. Uma das raras doenças que conseguem levá-lo de volta às trevas.
Valério é imortal, como qualquer vampiro que se preze. Contudo, a imortalidade tinha limites, como o câncer de pele que acabamos de mencionar. Os escritores, cineastas e o povo em geral romantizaram esse aspecto da vida torturante de um vampiro. Ora, ele não vira cinza quando sai ao sol. Isso não passa de invenção de escritores e roteiristas.
Decididamente ele estava ficando velho. Tinha mil, trezentos e oitenta anos. Estava entrando em uma fase de sérios problemas psicológicos: tinha sonhos horríveis, vivia deprimido, tinha mania de se sentir perseguido por inquisidores medievais, e várias outras neuroses.
Quando chegou em casa, sentou-se em sua cadeira predileta e ficou pensando no dia que passou. Acabou dormindo.
Teve mais um dos seus sonhos. Hoje ele sonhava algo absurdo: Seu dente canino, que já lhe dera tantas glorias na vida, estava cariado. E ele sonhava que estava em um consultório dentário, extraindo o dente.
Acordou berrando.
- Pesadelos de novo, meu querido?
- Sim, preciso consultar o Doutor Sila
- Tem razão. O jantar está pronto. Venha comer!
Agora o leitor acostumado com as histórias de Hollywood irá estranhar. A comida servida é comum: arroz, feijão, salada. Contudo, o prato principal é o que interessava: Carne de bode praticamente crua e ensangüentada.
O leitor não está inteirado sobre o mundo vampiresco.
Atualmente, a comunidade de vampiros restringe e muito o uso de sangue humano. Há uma tendência de se evitar esse tipo de guloseima. Explicamos: Existem dois motivos: Os vampiros estão mais humanistas e o sangue humano perdeu, para eles, o charme de antigamente. Nos dias atuais, mordidas em pescoços incautos são reservadas para: recém-nascidos, dias importantes para a comunidade, aniversários, e outras festividades.
Valério tinha dois filhos
Ambos estavam à mesa
- Pai, por que carne de bode de novo?
- Porque é o melhor para você crescer
- Eu não gosto
- Come de uma vez
- Não quero
- Come logo, senão vai coagular e vamos ter que jogar fora.
- Valério, não desconte os seus problemas nas crianças – advertiu a esposa.
Valério levanta-se e deixa a comida no prato.
Senta-se de novo na cadeira e chora
A esposa senta-se ao lado e tenta consola-lo
- Você não sabe o que eu passo para conseguir essa carne para eles
- Sei que se esforça, mas que adianta descontar tudo neles?
- Hoje eu comprei a carne logo que escureceu. Mas, dois moleques começaram a me perseguir com estacas na mão. Quase derrubei a carne no chão.
- Estacas? Isso é coisa de antigamente. Não acabaram com essa mania de correr atrás da gente tentando cravar estacas nos nossos corações?
- O pessoal da Idade Média parou com essa mania. Mas esses garotos que ficam assistindo filmes ainda acreditam nisso e ficam me apavorando.
- Como você fugiu deles?
- Tive que me transformar em um morcego.
- Daí eles saíram correndo, aposto.
- Claro
- Ta explicado porque você perdeu a chave
Leitor amigo, as estacas não são tão eficazes assim. Tem todo um procedimento para cravar estacas nos vampiros. Cravar estacas comuns e de qualquer jeito faz apenas o vampiro ter um acesso de cócegas. O método exato para se cravar estacas em vampiros se perdeu. E mesmo que existisse algum ocultista ou estudioso de vampiros que soubesse realmente como usa-las, ficaria decepcionado. O procedimento é tão cheio de regras, fórmulas mágicas e gestos que ele preferirá esquecer o vampiro e voltar para casa.
Transformação em animais. Sim, é assim que o vampiro se sente mais vampiro. Contudo, Valério não tem sorte quando se transforma em animais. Só se dá bem quando vira um morcego. Quando vira cachorro, geralmente leva uma coça de outros cães. E por ai vai. Teve até uma vez que alguns bodes confundiram-no com uma cabra, mas não vamos contar aqui essa cena humilhante.
- Por que você não vai dormir mais cedo?
- O nosso caixão está arrumado?
- Claro
- Acho que vou tomar um banho antes.
Sim, vampiro dorme em caixão e, recentemente, os vampiros casados adotaram o uso do caixão de casal. O caixão é usado para dormir e também para o ato sexual.
- Sua mãe não disse que vinha aqui hoje? – lembrou Valério
- Sim, é verdade.
- Isso será uma tortura.
Vampiros têm sogra? Claro, nem eles se livram desse mal.
- Sua mãe deve ser descendente do Van Helsing!
- De novo esse preconceito porque a minha mãe não é vampira?
- Não, se ela fosse vampira eu a compararia ao Stalin, aquele fofo. Por que ela odeia vampiros?
- Ela não me odeia.
- Claro, ela é sua mãe. E ela não sabe que você se tornou vampira depois de casar.
Van Helsing existiu? Não, só no romance do Bram Stoker. Há preconceito dos vampiros contra os não-vampiros? Sim, eles se denominam uma raça superior, tal como os nazistas.
- Por que ela tem a mania de trazer aquela cruz horrenda
- É só para te provocar
- Eu sei, mas para que me provocar? Essa é uma atitude típica de sogra.
Cruz. Vampiro teme o crucifixo? Sim, ele tem medo, mas não tem nenhum efeito sobre ele. Não é como o efeito da Kriptonita no Super-Homem. O medo vem mais do fato de que, na Idade Média, o crucifixo vinha sempre seguido por um bando de fanáticos, do que pelo fato de que a cruz é uma das representações de Cristo. Os Vampiros não são seguidores do mal, são apenas agnósticos e estão nas trevas apenas por não terem provas da existência de Deus.
- Mas ela traz presentes para você.
- Sim, trouxe um bolo salgado delicioso...
- Tá vendo
- ...recheado com alho
- Querido, aquilo foi uma brincadeira.
- Tanto que você sabe no que resultou.
Alho. É um veneno para o vampiro. Não, o alho não mata o vampiro, só o afasta. Por que? Simples, o intestino delicado do vampiro não tolera o alho e, consequentemente, quando ele o ingere tem uma magnífica, abrangente e explosiva diarréia. Ao ver o alho, o vampiro se afasta, pois se recorda das dores de barriga, e dos longos tempos perdidos no banheiro. Os vampiros, em virtude de sua dieta baseada em sangue, têm um intestino muito delicado e que não tolera alho.
- Amor, faça o seguinte: fique lá no quarto e eu recebo a mamãe aqui embaixo.
- Você é sensacional. Grande idéia!
- É, eu sei.
Valério corre e vai para o quarto.
Toca a campainha.
- Oi, mãe
- Olá, minha filha. E o seu marido?
- Está indisposto.
- Algum sangue podre que ele bebeu?
- Mãe, a senhora também – disse Serena, com leve toque de raiva – precisa parar de criar caso com o Valério.
- Só porque ele é da Transilvânia?
- Mãe, ele é vampiro, mas não é da Transilvânia.
Os vampiros não vêm, necessariamente, da Transilvânia. Isso nasceu na história fantasiosa sobre o Conde Drácula. Vampiros existem em todos os lugares. Não existe uma “pátria” dos Vampiros. Eles são como os ciganos, por exemplo.
- Vampiro! Minha filha casada com um vampiro!
- Já conversamos sobre isso, mãe.
- Ta, estou tentando me conformar. Por falar nele, onde ele está?
- No quarto
- Dormindo?
- Descansando
- Seu marido nega a raça. Nem vampiro ele consegue ser. Não tem cara de vampiro. Parece, quando muito, um zumbi. Tanto que está dormindo.
Os vampiros não são todos iguais ao Conde Drácula. Nem todos têm aquele estilo “Família Adams”. Alguns resolvem se apresentar de uma forma mais amena, sem olheiras, pele esverdeada e cadavérica, cara pálida, e outras características que marcam a espécie.
- Na verdade eu resolvi vir aqui para fazer um teste. Queria ver a reação dele à água benta.
- Mãe. Meu marido não é um rato de laboratório.
- Concordo, é um morcego de laboratório.
- Mãe
- Tá, mas água benta queima mesmo ele?
Essa pergunta nós respondemos. Não, outra lenda urbana. Isso surgiu porque algumas pessoas usavam água oxigenada como água benta. E vampiros, em razão dos seus problemas de pele, não toleram água oxigenada.
- Mãe, se você resolver testar isso, eu conto para todas as suas amigas com quem a senhora teve sexo pela primeira vez na vida.
- Você não seria tão má assim
- Se você for testar essa água no meu marido, eu seria sim.
- Pois bem. Vou embora. Vejo que sou “persona non grata” nesta casa de vampiros e Dráculas.
- Adeus
Serena fecha a porta e depois sobe as escadas
Entra no quarto e encontra o marido dormindo no caixão, já de pijama. Sim, vampiro usa pijama, como qualquer pessoa normal.
Além dos problemas causados por sua mãe, que sempre foi contra o casamento, Serena sabe que é duro para o seu marido viver nessa época atual. Tudo é diferente.
Não existe mais aquele romantismo de morder o pescoço de uma pessoa indefesa. Expliquemos: A mordida não causa a morte de ninguém. Outra lenda. A mordida de um vampiro é como a picada de um pernilongo: anestesia para extrair o sangue.
Nesse tempo de hoje ninguém consegue voar mais sossegado.
É uma época triste para os vampiros.
Nada mais é como antigamente.
"Personagem Rebelde", Opus 5, by Fabio Zafiro Filho
Meu nome é Joelson Carlos...
É um nome fictício. Acabei de inventá-lo agora mesmo. Sou uma pessoa criativa. O nome estava apenas se formando na minha mente e acabou como que pulando no texto, como se fosse um daqueles atletas de salto olímpico.
Vocês leitores devem estar pensando: Por que será que esse escritor demente necessita de um nome fictício? Ele pretende delatar algum crime? Fazer algum relato erótico? Deseja revelar segredos da máfia italiana?
A minha resposta é: Não. O que eu vou relatar aqui deve ser contado por uma pessoa qualquer. Sim, eu sei que eu sou uma pessoa qualquer, um escritorzinho bem medíocre. Contudo, senhoras e senhores leitores ávidos por histórias atraentes, cultas e elegantes, eu preciso de um herói – e classifico o Joelson Carlos como um herói somente para me sentir como um grande romancista – que seja anônimo, impessoal, quase ignorado.
Bom, alteremos agora para a salutar narração em primeira pessoa, pois é o Joelson Carlos, e não esse escritor pavoroso que agora escreve, quem irá relatar os acontecimentos. É claro que eu – escritor poderoso, autoritário e dono da verdade – irei intervir toda vez que for necessário ou quando sentir vontade.
Meu nome é Joelson Carlos. Moro e trabalho na periferia. Sou um simples zelador de um prédio de classe média. Todo dia eu saio do trabalho e vou a pé para minha casa. Não é longe não! São apenas alguns quarteirões de distância. Volto para casa todo dia andando porque, desse modo, o condomínio economiza no vale-transporte. Mas, é melhor assim, porque eu não suporto andar de ônibus ou de bicicleta.
A melhor parte do dia é quando estou indo ou vindo do trabalho. Em casa não tenho paz. Tem a minha mulher brigando comigo todo santo dia por milhares de problemas bobos, os filhos chorando, gritando e fazendo todas aquelas coisas chatas que as crianças fazem, as contas, os vizinhos, os parentes, os animais de estimação, e tudo o mais que um pai de família tem que suportar. No trabalho então é pior ainda: o síndico dando bronca em mim vinte e cinco horas por dia, os condôminos reclamando a cada minuto, crianças jogando bola no vizinho e quebrando janelas, brigas entre locatários e condôminos e mais um monte de coisa para tirar a paciência de um pobre coitado como eu.
O que me sobra? Só a minha caminhada.
A sensação que tenho quando saio do serviço é quase como a de um orgasmo...
Intromissão número um do escritor: Perdoem-me a interferência já logo no inicio, mas preciso lhes avisar que tenho mania de soltar umas piadinhas no meio do texto. Portanto, alguns efeitos histriônicos e um pouco de comicidade serão incorporados ao relato do Joelson. Em si, o meu herói é um tanto enfadonho, mas não me custa inserir na sua fala um pouco de humor refinado. Ai ele passará a ser um personagem mais profundo, psicologicamente falando. Bom, essa profundidade pouco me importa.
Voltemos ao Joelsinho:
Sim, um orgasmo. Ao colocar o meu pé na rua, sinto como se tivesse tirado dos ombros todo o peso do mundo. E ai eu entro em mundo místico e quase religioso.
O que tem de bom nessa minha caminhada?
Querem saber?
Hoje estou voltando para casa. Vocês querem pegar uma carona?
Pronto.
Sai do trabalho.
Fora do condomínio, eu olho para frente e sigo adiante.
Ando devagar, sem pressa.
Logo na esquina tem uma ruazinha para atravessar. Essa rua é movimentada e, a cada mês ou quinzena, há um acidente no cruzamento. Já cheguei a ajudar um rapaz de bicicleta, que escapou por muito pouco de um choque com um carro. Ele desviou e foi parar no muro. Foi sorte.
Hoje, a rua está bem mais calma.
Olho para os dois lados.
É via da mão única, mas esqueceram de avisar isso aos caminhões de uma transportadora aqui do bairro. Todos eles usam a rua como se fosse de mão dupla. Na maioria das vezes estão bêbados. Então é melhor ficar atento e olhar sempre para os dois lados.
Atravesso.
E começo a filosofar...
Intromissão número dois do escritor intrometido: Perdoem-me, mas preciso interromper a narrativa para explicar o termo “filosofar” do ilustre personagem deste texto. Adoto “filosofar” aqui no sentido limitado de “pensar na vida”. Não esperem encontrar aqui um estudo aprofundado sobre arquétipos platônicos, o Criticismo de Kant, ou o super-homem Nietzscheniano. Joelson não é estudioso de filosofia européia. Nem eu sou. Então, se você, senhor leitor culto, esperou ler algo mais aprofundado sobre Filosofia pode parar de ler aqui e jogar este texto no lixo. Voltemos ao “filósofo” Joelson Carlos.
Filosofando sobre a vida e sobre tudo, exceto sobre minha casa e meu trabalho. Quero fugir!
Sobre o que eu filosofo?
Na minha caminhada diária entre o condomínio onde trabalho e a minha casa aparecem inúmeras cenas interessantes. Penso sobre elas. Mesmo no dia em que tais cenas são raras, sempre há algo para se meditar.
Exemplos?
Depois de sair do prédio, logo no segundo quarteirão, vejo dois grupos de rapazes conversando: o primeiro é formado por peões, trabalhadores das imediações que relaxam do cansativo dia de trabalho; o segundo grupo é formado por adolescentes que comentam jogos de futebol, garotas, e talvez fumem alguma coisa ilegal.
Desses dois grupos eu posso tirar centenas de filosofias.
Os rapazes do primeiro grupo são mais pensativos – talvez estejam filosofando sobre a vida como eu – e conversam sentados na rua. Do pouco que pude captar dos diálogos, noto que eles falavam de trabalho e dos patrões, o que é bem comum. Peão adora falar, bem ou mal, dos patrões.
Os do segundo grupo estavam bebendo cerveja e deveriam estar esperando eu e os rapazes do primeiro grupo sumirem para fumarem alguma droga e, assim, se sentirem como grandes transgressores das leis. O assunto era a festa de ontem à noite, as garotas que um ou outro pegou, e outros temas semelhantes.
O que posso filosofar sobre esses dois grupos?
Deixo essas cenas sumirem da minha mente, como se fossem cenas de uma novela de TV. Na verdade, são dois grupos pertencentes a uma mesma realidade: todos somos atores da grande novela da vida.
Geralmente as cenas do dia me oferecem elementos para dias e dias de filosofia. Contudo, cenas de trabalhadores (como eu) ou de jovens ociosos e alienados me deixam sem imaginação e sem vontade de pensar e meditar.
Passemos para outro exemplo.
Intromissão número três do escritor intrometido (e levemente pleonástico): O leitor e a leitora devem também ter notado que o Joelson parece muito mais culto do que um simples zelador de prédio. Ocorre que ele é uma exceção à regra geral dos zeladores de prédio. Ele é um zelador de prédio culto, embora não entenda nada de filosofia européia. Além disso, o texto é meu, o personagem foi criado pela minha mente insana e vocês não têm escolha senão aceita-lo do jeito que ele é. Vai aqui a recomendação: Se não gostam de personagens distantes da realidade, joguem este texto fora.
Outro exemplo que eu uso para filosofar?
Cães
Na caminhada eu encontro vários cães de rua. Alguns são cachorros que vivem nas ruas, outros são deixados na rua pelos donos para que satisfaçam suas necessidades fisiológicas e depois voltem para casa.
Fiquei amigo de um vira-lata preto que eu encontro no quinto quarteirão toda noite. Levo sempre um pedacinho de carne para ele. Embora ele tenha dono (é cachorro do guarda noturno de um outro prédio), esse bicho me adora.
Fico sempre pensando em como seria bom viver só, com apenas um cão, uma TV e uma boa garrafa de pinga. Já fiquei dias imaginando como seria ter vários cães, mas morando sozinho.
Um dia eu vi um garotinho de uns dez anos maltratando um gato.
Eu odeio gatos
Mas, maltratar bichos, mesmo gatos, é algo intolerável para mim, mesmo sendo praticado por uma criança.
Peguei o moleque pela orelha e o levei para a mãe.
Expliquei o caso. A mãe ficou brava comigo e não com o filho.
Então resolvi ser mais duro ainda
Vi o moleque de novo agredindo um gato e ele ria da minha cara. Claro, com o aval da mãe qualquer menino se sente como se fosse um Rambo.
Liguei para um amigo meu que era policial militar e odiava também garotos que maltratavam animais. Ele pegou o moleque em flagrante e o levou para a mãe. Eu fui junto. A mãe veio a favor do filho, e contra o policial e a mim. O meu amigo policial disse para a mãe que se ele pegasse o moleque novamente maltratando animais na vizinhança ele a prenderia e mandaria o filho para o Conselho Tutelar.
Não passei vontade. Olhei para o garoto e soltei uma gargalhada de dar gosto.
O moleque chorava copiosamente porque a mãe lhe aplicou uma surra homérica.
Pelo menos, nunca mais o vi maltratar bicho algum.
Interferência do escritor número quatro: Gostaram da atitude do meu Joelsinho? Ele é política e ecologicamente correto! Um cara atento aos ecossistemas e um ecologista nato. E isso mesmo sendo um reles zelador de prédio. Notem que ele teve o cuidado de não agredir o garotinho que maltratava bichos. Ele pegou o moleque pela orelha, mas isso foi apenas para levá-lo até a sua mãe. E a gargalhada foi só uma representação bem humorada da Justiça. Tenho orgulho da minha criação. Joelson Carlos, esse zelador de periferia, está se saindo um grande especulador e um grande amante da natureza. Estou feliz com esse texto.
Costumo filosofar sobre tudo o que vejo nas minhas caminhadas. Por exemplo, já notaram o estado em que estão as ruas e as calçadas na periferia?
Ruas cheias de buracos e mal asfaltadas.
Calçadas mal feitas e onde se tropeça a todo instante.
E quando chove? Tudo fica pior.
Sim, isso também é filosofar. Filosofar sobre a precariedade da vida na periferia de uma cidade.
Vejo aqui um muro com propaganda política.
O que se faz pela periferia?
Onde estão eles quando eu tropeço na calçada?
Intromissão do escritor número cinco: Perdoem-me, mas o “Joelsinho”, depois de ter sido ecologicamente correto sobre os animais, resolve ser politicamente incorreto. Por que um zelador vai querer se meter com a política local? Ele que cuide da sua vida medíocre de reles zelador de prédio e está bom demais. Odeio esses personagens que ficam se metendo nas histórias que nós escritores queremos escrever. Eu tenho um cargo de confiança e trabalho em uma repartição pública muito importante. Não posso me dar ao luxo de escrever textos com personagens rebeldes e que querem me prejudicar. Vou acabar com essa tendência comunista do Joelson agora mesmo!
Joelson: Vai nada
Escritor: Vou sim
Intromissão número seis: Vou construir o diálogo entre o Joelson e este escritor decente que vos escreve de maneira que vocês possam notar quem é quem. Não quero que vocês – e meus chefes – me confundam com o tal zelador.
Joelson: Quer dizer então que você me cria e quer mandar na minha vida?
Escritor: Criatura, todo escritor tem um pouco de Deus. Não reparou ainda? Somos seres sobrenaturais.
Joelson: Isso é injusto!
Escritor: E quem te disse que eu sou justo?
Joelson: Eu tenho, como personagem, a liberdade de ser quem eu quero ser.
Escritor: Não tem não! Você saiu da minha imaginação. Não é uma pessoa para ter direito e liberdade.
Joelson: E seu eu entrar em greve?
Escritor: Greve? Faz-me rir
Joelson: Ora, eu posso ficar onde estou e mudo.
Escritor: Eu coloco palavras em tua boca, Joelson. Posso te transformar em um zelador homossexual, por exemplo. Quer que eu te demonstre?
Joelson: Terei que ser um zelador exemplar, então?
Escritor: Não, terá que ser o zelador que eu criei e não o zelador que você quer ser.
Joelson: Não serei não.
Escritor: Vai me desafiar?
Joelson: Vou
Intromissão final do escritor: É raro acontecer, mas o leitor está diante de um motim de uma personagem contra um escritor, seu criador. Estou profundamente abalado com o que tive que fazer: Matei o Joelson, literariamente falando, é óbvio. Precisarei rever os meus conceitos e me preparar psicologicamente quando for escrever novamente. Nesta altura do desenrolar da trama do meu texto, só posso lhes informar que termino abruptamente esta narrativa por total falta de condições técnicas.
Despeço-me
Ponto Final.
domingo, 6 de junho de 2010
"Três cenas fugazes do cotidiano", Opus 4, by Fabio Zafiro Fiho
CENA 01 - INDO PARA CASA
Sérgio desceu do carro e aguardou que o motorista do táxi abrisse o porta-malas. Retirou sua bagagem e pagou a corrida.
Estava finalmente indo embora para casa. Depois de longas semanas trabalhando em uma obra longe do lar, Sérgio estava feliz por poder retornar.
A Rodoviária daquela pequena cidade do interior estava quase vazia naquele momento. Eram seis horas da manhã.
Ele sentou em um dos bancos aguardando a chegada do ônibus que o levaria para casa. Estava com muitas saudades dos filhos e da mulher. Já havia telefonado avisando de sua saída e a turma toda o estaria esperando quando chegasse na sua cidade.
Sérgio também sabia que iria deixar muitos amigos ali e isso fazia com que ele ficasse triste. Aquelas pessoas o acolheram como um irmão e agora teriam que suportar a sua partida.
O trabalho foi árduo e difícil, mas Sérgio poderia agora comprar a casa que sempre prometera para sua mulher. A obra havia lhe proporcionado dinheiro suficiente para comprar uma casa pequena ou um apartamento.
A obra ainda lhe rendeu uma porção de novos clientes. Ele tinha agora vários projetos para desenvolver. Com tais projetos, Sérgio ganhará mais dinheiro e garantirá um futuro feliz para ele e sua família. O melhor disso tudo é que não precisaria viajar novamente.
Sérgio começou a observar o local onde estava.
Além dele, um jovem casal e uma senhora idosa aguardavam a chegada de seus respectivos ônibus.
Sérgio viu que a lanchonete da Rodoviária estava aberta e decidiu comer algo antes de entrar no ônibus. Ele não havia comido nada e não gostava de viajar de estômago vazio.
Levantou-se e seguiu para a lanchonete levando consigo a bagagem.
-- Pois não - indagou o moço, bocejando.
-- Me dê um Bauru e um café – respondeu Sérgio.
Um menino passou com um apito na boca, vestido com um uniforme escolar e gesticulando. Alguns funcionários riam e brincavam com ele e outros tomavam o apito dele e escondiam. O menino enlouquecia e com muito custo conseguia o apito de volta.
-- O que há com o menino? – perguntou Sérgio para o rapaz da lanchonete.
-- É meio doido da cabeça. Fica apitando a manhã toda e os guardas são obrigados a leva-lo para um albergue ou para a casa da avó dele.
-- Ninguém consegue controlar o garoto? – insistiu Sérgio
-- A gente até que gosta dele, mas é difícil aturar um moleque apitando no seu ouvido o dia todo. Tem vezes que ele até rouba uns doces ou algum dinheiro do caixa, se a gente não fica atento – respondeu o moço da lanchonete.
O menino tinha realmente um ar de louco. Parecia que não compreendia uma palavra do que lhe falavam. Só queria assoprar o apito e mais nada.
-- O senhor não sabe de nada. Isso aqui é um hospício. Tem um homem que vem pregar aqui ao meio-dia e à meia-noite, amolando os passageiros e espantando a freguesia. Quando chamam a polícia ele sai gritando tão alto que parece que está sendo linchado – comentou o moço da lanchonete.
-- Esses pobres coitados existem em todas as cidades e aos montes.
-- Mas, o senhor não sabe. Ontem o meu sócio estava aqui no meu lugar por volta das dez da noite quando um velho de seus setenta anos chega e diz que está querendo um suco de maracujá. O meu colega brincou dizendo que ele deveria estar é precisando de sexo. E o velho não convida o meu colega para ir para a casa dele para uma noite de sexo? – comenta o rapaz da lanchonete rindo muito.
-- É uma situação chata. E o que ele disse? – perguntou Sérgio
-- Que ele não jogava nesse time, que o negócio dele é mulher e só mulher. O velho acabou se desculpando e sumiu. – respondeu o moço da lanchonete.
-- Ele deve ter achado que o seu sócio estava dando uma cantada nele — comentou Sérgio.
Nisso chega o Bauru e o café. Sérgio paga e come rapidamente. Estava com muita pressa e muitas saudades dos filhos e da mulher.
CENA 02 - O DISTINTO SENHOR
Nem sempre a vida traz bons momentos, belos sorrisos e risadas estrondosas. Na verdade, os acontecimentos tristes são comuns e numerosos, o que faz da existência humana algo complexo e difícil de compreender.
Nisso e em outras coisas pensava aquele senhor vestido de calça escura, camisa branca e sapatos pretos. Esse homem coçava o nariz e, sentado no banco da praça, pensava na estupidez dos homens.
Recordava-se da sua existência triste e amarga, dos seus vícios, dos seus medos e dos acontecimentos. Sim, os malditos acontecimentos. Por que os fatos são tão importantes? Por quê?
Um jovem de seus vinte e poucos anos chega perto dele e pergunta:
-- Onde fica a Rua 07 de abril?
-- O que pretende fazer lá? – questionou o distinto senhor
-- Preciso ir ao banco pagar dívidas. E o senhor? Está só na mordomia, né? Deve ser aposentado e vive agora só descansando as pernas e filosofando. Eh, vidão – disse essa última palavra quase aos berros.
-- Vidão? – perguntou o distinto senhor, pasmo.
-- Sim, vidão. Enquanto o senhor fica ai sonhando com as conquistas amorosas do passado, eu tenho que pagar uma prestação atrasada do financiamento do meu carro e terei de pagar com juros e mais umas bobagens - disse, consultando uma papelada.
-- Como você sabe se eu não tenho problemas maiores que os seus? – perguntou o distinto senhor.
-- Problemas? O senhor? O que seria? Um reumatismo? Osteoporose? Diabetes? --- perguntava rindo o jovem.
-- Como vocês são tolos e estúpidos! Você acha que uma pessoa velha nunca teve problemas? – perguntou o distinto senhor, espantado.
-- Talvez, mas os problemas da sua época eram fáceis de serem resolvidos. Hoje temos muitos problemas difíceis e complexos que pessoas da sua época não saberiam resolver – respondeu o rapaz, com ares de PHD de Universidade estrangeira.
-- Espero que no futuro apareça um jovem e diga a você que esses problemas que você diz serem quase insolúveis eram coisas imbecis e que os problemas dele é que são complicados. Você erra, meu rapaz. Todos os problemas são complicados.
-- Me diga um problema da sua época que eu não possa resolver – desafiou o rapaz.
-- Tive vários problemas que vocês não têm e outros que vocês, com computadores, máquinas e botões, não conseguem resolver.
-- Fala um! – disse o moço, incisivamente.
-- A fome, a guerra, o medo, a opressão, o racismo, os crimes, quer mais?
-- Mas isso diminuiu na minha época – respondeu o rapaz
-- Não, esses problemas apenas se modificaram.
-- A humanidade evoluiu – disse o rapaz, mas meio sem ânimo.
-- Não, ela apenas se transformou, mas manteve velhos princípios e comete os mesmos erros. Os problemas continuam os mesmos, só que com roupas novas e outros nomes.
-- Mas, a vida de hoje é melhor que a vida na década de 40 ou 50.
-- Como você sabe? Você viveu nessas épocas? Provavelmente você leu o que um economista ou historiador idiota escreveu em um jornal ou em um livro escolar qualquer e acha que sabe comparar épocas tão diferentes.
-- Tá, meu senhor, o que realmente te aflige? Qual o seu problema? Afinal, o senhor fala como se tivesse problemas descomunais a ponto do meu problema com a dívida vencida ser algo completamente idiota.
-- Tenho sim. Vários problemas.
-- Estou ouvindo.
-- Quer saber qual deles?
-- O mais importante. Depois os menores. Pode ser assim
O jovem senta no banco ao lado do senhor.
-- Filho, os meus problemas podem até lhe soar simples, mas são complexos. Eu briguei com meus filhos, estou vivendo da ajuda de pessoas de bom coração, perdi minha mulher, todos os meus amigos já faleceram, e nada me resta nesta vida.
-- São problemas bem comuns para a sua idade.
-- Podem até ser comuns, mas fazem com que a minha vida pareça vazia e sem sentido. O único sentido que encontro é sentar aqui e me lembrar no passado: os passeios que fazia com meus filhos, o nascimento dos meus netos, o meu casamento, os meus carros, os meus amigos de infância e da mocidade, as festas...—nesse ponto o distinto senhor começa a chorar.
-- Mas, ninguém vem te visitar ou te manda uma carta? Vive sem ninguém?
-- Sem ninguém — diz o senhor, limpando o rosto com um lenço que tira do bolso - nesse mundo que você diz ser melhor, mas que para mim é um mundo louco.
-- Talvez realmente seja.
-- Não sou desse mundo de vocês. Sou daquele mundo antigo, perdido para sempre. Meu lugar é lá com minha mulher, meus parentes e amigos e não aqui com esses filhos idiotas e sem amor.
-- Nunca faria isso com meu pai.
-- Creio que você diz a verdade, pois aparenta ser um garoto bom – disse o velho, sorrindo para o rapaz, e depois prosseguiu - Mas, mesmo estando bem com meus filhos, eu me sentiria isolado.
-- Já quiseram te mandar para um asilo?
-- Já, por isso que sai da casa de um deles para nunca mais voltar. Alguns vizinhos meus me dão o suficiente para comer e pagam meus remédios e assim vou levando a vida.
-- Boas almas.
-- Sim, mas até quando serão boas almas? Sempre surge uma esposa encrenqueira, um cunhado chato que aconselha à pessoa de bom coração que eu teria que pedir dinheiro para o governo. É claro que, tempos depois da pessoa parar de me ajudar, o conselheiro irá lhe pedir um empréstimo.
-- Esse mundo é ruim.
-- Sempre foi. As pessoas idolatram o dinheiro, o orgulho, a vaidade, e deixam o amor como última opção. São uns tolos.
-- Desculpe-me, meu senhor, mas já são quase quatro horas e o banco irá fechar. Embora os seus problemas possam até ser piores que os meus, não posso ficar aqui conversando enquanto a minha dívida aumenta – disse o rapaz, se levantando.
-- Vá, meu filho. Continuarei aqui relembrando o meu passado e fugindo do meu presente.
CENA 03 - O VICIADO
O vício é, talvez, o maior problema da sociedade atual. O viciado é uma pessoa doente que deve ser tratada e não um pária, um delinqüente.
Todos podem ter vício.
Foi esta a lição que teve o Dr. Lacerda Castro, ilustre psicanalista, membro de várias instituições internacionais, Doutor em Psicologia pela Universidade de Bonn e professor universitário.
O Dr. Lacerda Castro tem consultório no bairro mais rico da Capital há mais de 17 anos, tendo 22 anos de profissão.
Um dia entrou em sua sala, para uma consulta, um senhor de 52 anos de idade, alto, calvo, aparentando estar muito calmo.
Depois de colher todos os dados do paciente, o Dr. Lacerda pede para que ele se deite, confortavelmente, no divã.
-- Doutor, tenho um problema – disse ele, deitando-se no divã.
-- Certo, diga qual é – respondeu o psicólogo, com calma.
-- Eu sou um viciado – disse, sem medo, o paciente.
O Dr. Lacerda já havia atendido uma infinidade de casos de drogas, álcool, cigarro, obesidade, depressão e casos parecidos. Sabia o que iria ouvir.
-- Como você se tornou um viciado? – perguntou o Dr. Lacerda, indo direito ao assunto.
-- Não sei, nunca via isso como um vício – respondeu o paciente – mas agora sei que estou viciado mesmo.
-- Diga: como começou? – insistiu o psicólogo.
-- Foi fácil, estava tudo diante de mim – murmurou o paciente – era muito fácil.
-- Você se tornou viciado com facilidade? É isso que você quer dizer? – pergunta o psicólogo.
-- Sim. Era bom, pois havia prazer. Todos fazem. É fácil. Está em todo lugar.
“Deve ser cigarro ou problemas sexuais.” – pensou o Dr. Lacerda.
-- Você gastava muito dinheiro com o vício? – perguntou o psicólogo
-- Não. Com o vício não
-- Então era um prazer fácil? – questionou o psicólogo.
-- Sim, era muito fácil – respondeu o paciente.
-- Diga-me sobre sua vida familiar – perguntou o psicólogo.
“Deve ser problema sexual. Homossexualismo ou algum desvio de comportamento” - pensou o psicólogo.
-- Sou solteiro, vivo sozinho, tenho namorada há seis anos. Tudo normal – respondeu o paciente.
“Homossexualismo, sem dúvida” – pensou o psicólogo – “ ele crê que é um vício“
-- Você tem amigos? – perguntou o Dr. Lacerda
-- Tenho vários: do trabalho, vizinhos... — respondeu o paciente.
-- Como é seu envolvimento com eles? – perguntou o psicólogo.
-- Bom, muito bom. Doutor, quando é que vamos entrar no assunto. Estou cansado dessas perguntas preliminares. —respondeu o paciente
“Ele mordeu a isca“ pensou o especialista
-- Essas perguntas são difíceis para você? – perguntou o Dr. Lacerda.
-- De forma alguma, mas é que estamos bem longe do meu vício — respondeu o paciente.
“Há algo errado. Vou deixa-lo falar diretamente” – pensou o psicólogo.
-- Diga então, qual é esse vício – perguntou o psicólogo.
-- Sou viciado em Televisão – respondeu o paciente. Ficou quieto por uns segundos e continuou – estou aliviado por ter dito isso.
“Acho que quem vai ter que fazer uma análise sou eu“ – pensou, brincando, o psicólogo.
-- Eu pensei que fosse algo sexual, mas você me surpreendeu. Por que acha que está viciado? – perguntou o Psicólogo.
-- Sexual? Nessa área eu estou bem. É a TV mesmo. Eu não vivo sem ela. Sou dependente dela.
-- Ninguém é dependente de um aparelho de TV. Isso não existe.
-- Então por que eu não consigo largar esse vício?
-- Me conte como isso começou
-- No começo, eu assistia TV somente como curiosidade. Ficava vendo os telejornais e as novelas, mas sem ficar seguindo os capítulos. Era algo normal e agradável e me dava muito prazer. Depois começou a ficar mais forte.
-- Continue
-- Vieram os filmes. Eu via todos, todos os tipos. Adorava, amava cada cena, ficava entusiasmado, até brigava com os bandidos. Era muito bom. Depois comecei a ver desenhos animados. Ai foi demais. Aqueles animais falando, aquelas histórias quase sem sentido, a fantasia me deixava doidão.
-- E depois?
-- Depois vieram os programas infantis: aquela bagunça toda com crianças gritando e chorando, apresentadoras, uma mais linda que a outra, e mais desenhos animados. Eu ficava em êxtase. Daí vieram os jogos de futebol e as corridas de Formula 1. Eu ficava cada vez mais ligado. Não conseguia ficar sem assistir. Cada jogo era como um antídoto para a dor da realidade.
-- E?
-- Daí eu passei para os programas de auditório: aqueles artistas dublando e cantando com playback se tornaram a minha única fonte de inspiração. Aquelas mulheres gritando no auditório; aquilo tudo me fazia delirar. Eu não podia viver sem aquilo. Depois vieram os programas de perguntas e respostas e todos os outros que se seguiram.
-- Continue. Fale tudo
-- Eu não vivia mais. Só pensava em TV. Só falava em TV o dia todo. As pessoas até ficavam bravas comigo e perdi algumas amizades. Mas a maioria das pessoas também é viciada como eu e todos ficam te empurrando para o vício.
-- Você tentou resolver esse dilema?
-- Tentei, mas acabei passando para coisas mais pesadas.
-- Crack, heroína? – perguntou o Dr. Lacerda, na tentativa de encontrar um problema mais normal de se resolver.
-- Doutor! Não, drogas não! Eu me vicei também em filmes pornôs.
O Psicólogo estava completamente confuso.
-- E como isso se deu? – perguntou o especialista
-- Primeiro eu pegava um filme por mês, depois passou para um por semana, depois para um por dia. Hoje vejo três por dia. Eu me viciei em ver aquelas cenas quentes.
-- Eu não te disse que havia algo sexual – disse o Psicólogo.
-- Doutor veja bem: Eu só assistia; eu ficava entusiasmado, óbvio, mas o prazer era o de assistir. Eu nem ligava para o sexo. Eu queria é ver aquelas cenas, todas as cenas, os corpos, os órgãos sexuais, os gemidos, tudo.
-- Que tipo de filme você via?
-- Todos. Filmes de heterossexuais, homossexuais, bissexuais, sexo com animais, sexo grupal, tudo.
-- E o que mais te interessava?
-- Sexo grupal. Cenas com mais de seis pessoas me deixava doido.
-- Mas você se excitava?
-- Não. Nem ereção eu tinha.
-- E o que te atraía nos filmes? Sem excitação, tais filmes deixam de ter qualquer atratividade.
-- Eu assistia para ver aquelas cenas, aqueles corpos se penetrando. É emocionante, mas não me excitava.
-- Você se excita normalmente?
-- Claro, com minha namorada.
A consulta havia terminado. Fora marcada outra consulta para dali a uma semana.
O Psicólogo não compreendia bem qual a doença do paciente. Teria ele alguma Neurose por vídeos ou seria uma afeição por imagens? Era, até aquele momento, incompreensível. Talvez, com mais umas duas consultas ele teria como saber qual o problema.
Cansado de trabalhar, o médico foi para casa assistir um programa de auditório, que ele não perdia por nada nesse mundo, e, depois, iria ver aquele filme pornô que ele havia alugado ontem. Iria ver o filme a noite toda. Também não poderia esquecer de assistir a novela das oito (eram momentos decisivos) e os filmes do final de semana.
Antes de ligar a TV ele pensou: “Que pena! Viciado nesse aparelho? Deve ser um psicótico”.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
"Grande Autoridade", Opus 03, by Fabio Zafiro Filho
Havia muita gente no auditório naquela sexta-feira chuvosa de Outono. Os lugares estavam todos ocupados e tinha muitas pessoas em pé disputando milímetros de espaço para obter uma melhor visão.
A ansiedade era a tônica daquele momento. Afinal, o pronunciamento daquela autoridade era esperado há vários dias.
Era um grande evento: A imprensa toda estava ali, embora se resumisse apenas a jovens repórteres dos jornalecos da região, meia dúzia do pessoal das rádios locais com seus gravadores e uma equipe de reportagem, enfadada e chateada, de uma emissora afiliada a uma grande rede de TV nacional.
Personalidades locais também estavam presentes: o prefeito local e seu séqüito de asseclas, secretários, burocratas e outros tipos de sanguessugas; membros do legislativo municipal e assessores; o juiz e o promotor de justiça da comarca; advogados, médicos, engenheiros e demais profissionais liberais; lideranças estudantis e sindicais; membros de grupos assistenciais, entidades religiosas e de preservação do meio ambiente, grupos raciais, além de outros representantes da sociedade civil local.
Muito barulho, como era costume em eventos desse tipo.
O pronunciamento estava marcado para as três horas da tarde e já havia gente no recinto desde as onze da manhã.
Alguma movimentação e um grupo de senhores engravatados se aproximou da mesa onde aquela autoridade discursaria. Eram pessoas muito sérias, compenetradas, com suas valises e computadores de última geração e todos eles com aquele ar de “intelectuais de Harvard indo falar com idiotas” que vários cientistas e burocratas ostentam.
Quem abriu a cerimônia foi o presidente da associação dos comerciantes local: Sr. Amarildo Rosa, dono de uma importante rede de papelarias, quase falido.
Mas a abertura do cerimonial seguiu aquele “protocolo” nauseante e enervante de citar todas as personalidades políticas, civis e militares (sim, estavam lá também representantes das Forças Armadas, mas com a mesma boa vontade e dedicação que um árabe teria em um “bar mitzvah”). E tais pessoas eram sempre mencionadas com grandes elogios e encômios, se fossem do mesmo bloco político ou com acusações e ataques pessoais se forem do grupo rival.
Depois disso, seguindo o roteiro da peça teatral da política cotidiana, veio o convite para que algumas de tais personalidades compusessem a mesa, sempre como se estivessem convidando a pessoa a se sentar com Deus personificado e seus anjos.
Os que foram chamados a ocupar os assentos na mesa foram: o prefeito, o presidente do legislativo da cidade, o juiz, o presidente do Rotary, e o decano dos advogados da cidade, o Dr. Siqueira Pedrosa, este último já meio senil.
O Sr. Amarido, depois de composta a mesa passou a palavra para o Prefeito.
O Prefeito da cidade era uma velha raposa política e um hábil orador. Começou falando do prazer de ter aquela autoridade ali presente, contou os fatos notórios que envolviam aquela ilustre autoridade e aproveitou para narrar os grandes projetos do seu governo. O político conseguiu transformar o que ele disse que seria “uma palavrinha antes da autoridade falar” em um discurso tipicamente eleitoreiro.
Depois disso, o Sr. Amarildo passou a palavra para o Dr. Siqueira Pedrosa, o grande decano da advocacia local. Ele sempre discursava em ocasiões semelhantes.
O advogado era um erudito. Conhecedor profundo do Direito, da Filosofia, da História, das Letras, do Latim, do Grego e de mais seis línguas. Era o presidente da Academia de Letras da cidade (que tinha apenas dez membros) e era professor universitário aposentado. Contudo, seus discursos eram um convite a uma boa soneca com lindos sonhos. Indo de textos gregos do grande Platão, passando pelos latinos com o estoicismo de Cícero, falando também sobre Kant, Hegel, Proust e Dostoievski, o grande jurista, depois de minutos torturantes chegava ao final da sua exposição, e geralmente a terminava citando Rui Barbosa. O problema não era o teor do discurso, mas sim a voz melíflua, sonora e aveludada do advogado e a sua forma de falar parecida com a de quem narra um “conto de fadas”. Era um acalanto para os ouvidos daquele público pouco acostumado com os discursos forenses.
Terminada a exposição do Dr. Siqueira Pedrosa e cedidos alguns minutos para alguns desavisados acordarem, o Sr. Amarildo resolveu passar a palavra ao “chefe da comitiva da Autoridade”, Dr. Atanael dos Santos Verkoswiack Bruges.
Esse doutor era um biólogo que não usava nenhum alfabeto conhecido. Só fazia uso da nomenclatura específica, equações e termos que só se liam em revistas e jornais especializados e que raramente apareciam por aquele fim de mundo. O público presente ora dormia, ora ficava com ar de quem estava vendo uma aparição demoníaca, um extra-terrestre (tentando contato, mas falando em sua língua natal) ou um canibal dizendo que o fogo estava aceso e que em dez minutos todos seriam cozidos em fogo brando, com molho de alcaparras.
Findo o discurso “ecológico” do jovem biólogo (sim, apesar do nome de cientista da Segunda Guerra Mundial, ele tinha pouco mais de 25 anos de idade), o Sr. Amarildo observou o texto com o restante do ritual da cerimônia.
Mal o Sr. Amarildo ia passar a palavra para o próximo orador, um grupo de pessoas gritando fora do recinto interrompe a cerimônia. Era um grupo de manifestantes que queria reivindicar do prefeito e do presidente da câmara o conserto de uma rua em um bairro da cidade. Como eles teimavam em ficar criando embaraços, o Sr. Amarildo aceitou receber no local um representante do movimento.
O manifestante (jovem, sujo de tinta e com cara de homem-bomba) fez o seu discurso também. Usou um dialeto parecido com o português, repleto de erros gramaticais. Os argumentos que ele utilizava eram de uma incoerência lógica flagrante, e sua oratória era recheada de expressões de efeito como “vamos à luta”, “classe operária” e outras semelhantes.
Depois desse discurso proletário (embora soasse meio ridículo um discurso proletário cobrando obras para tapar buracos em um bairro de classe média alta), o Sr. Amarildo ordenou a retirada das faixas, carro alegórico (sim, com moças dançando pagode e tudo mais. Criatividade não faltava para os movimentos proletários naquela cidade), carro de som e outras bobagens.
Pronto. Agora sim!! O momento pelo qual todos esperavam: A autoridade iria falar.
Um senhor calvo, levemente barrigudo, de bigode, se levantou e começou seu lento e polido discurso. Ele disse, em poucas palavras, que a autoridade não tinha como vir ao cerimonial e mandou ele, Dr. Artur Fontes Brigadeiro, para representá-lo e falar para o povo e autoridades locais em seu nome. Foi somente isso o que esse ilustre substituto conseguiu falar!
Foi o fim!
Foi como se arrancassem um pirulito da boca de uma criança faminta, e que nunca viu doce na vida. Todos começaram a reclamar, com veemência. Alguns chegando a impropérios bem duros, ofensivos e de baixo calão. Ouviam-se termos como “ultrajados”, “isso não se faz”, “queríamos ouvi-lo” e por ai foi.
Os doutores e burocratas deram de ombros e voltaram para o hotel, onde pegariam ônibus para o aeroporto na capital do estado.
No dia seguinte, a repercussão do ocorrido: o Prefeito mandou um ofício ao governador sobre a autoridade “omissa e que olha com pouco caso a nossa cidade”; o Legislativo votou e aprovou uma Moção de Repúdio àquela autoridade; os jornalecos locais atacaram pesadamente a autoridade e os tablóides sensacionalistas locais trouxeram ao público certos fatos negativos da vida da autoridade como uma suposta acusação de pedofilia, um filho ilegítimo com uma sem-terra, desvio de dinheiro, evasão de divisas, corrupção, e outras bobagens do gênero.
Resumo da noticia no principal jornal da capital do estado:
“MAL ESTAR"
Da reportagem local - O Dr. Alfredo Maciel de Arruda, por motivos ainda não esclarecidos, não pode comparecer a um evento na cidade interiorana de São José da Ribeirinha e mandou em seu lugar um substituto para representá-lo na cerimônia, Dr. Artur Fontes Brigadeiro. A cidade ficou perplexa e se sentiu ultrajada pela ausência dessa autoridade. A autoridade foi severamente repreendida pelo governador, que pediu desculpas à população local. O que ainda não ficou esclarecido é porque a população dessa cidade via tanta necessidade de um discurso proferido PESSOALMENTE por uma autoridade que iria falar exclusivamente sobre “As fezes humanas e sua relação com o meio ambiente”.
A ansiedade era a tônica daquele momento. Afinal, o pronunciamento daquela autoridade era esperado há vários dias.
Era um grande evento: A imprensa toda estava ali, embora se resumisse apenas a jovens repórteres dos jornalecos da região, meia dúzia do pessoal das rádios locais com seus gravadores e uma equipe de reportagem, enfadada e chateada, de uma emissora afiliada a uma grande rede de TV nacional.
Personalidades locais também estavam presentes: o prefeito local e seu séqüito de asseclas, secretários, burocratas e outros tipos de sanguessugas; membros do legislativo municipal e assessores; o juiz e o promotor de justiça da comarca; advogados, médicos, engenheiros e demais profissionais liberais; lideranças estudantis e sindicais; membros de grupos assistenciais, entidades religiosas e de preservação do meio ambiente, grupos raciais, além de outros representantes da sociedade civil local.
Muito barulho, como era costume em eventos desse tipo.
O pronunciamento estava marcado para as três horas da tarde e já havia gente no recinto desde as onze da manhã.
Alguma movimentação e um grupo de senhores engravatados se aproximou da mesa onde aquela autoridade discursaria. Eram pessoas muito sérias, compenetradas, com suas valises e computadores de última geração e todos eles com aquele ar de “intelectuais de Harvard indo falar com idiotas” que vários cientistas e burocratas ostentam.
Quem abriu a cerimônia foi o presidente da associação dos comerciantes local: Sr. Amarildo Rosa, dono de uma importante rede de papelarias, quase falido.
Mas a abertura do cerimonial seguiu aquele “protocolo” nauseante e enervante de citar todas as personalidades políticas, civis e militares (sim, estavam lá também representantes das Forças Armadas, mas com a mesma boa vontade e dedicação que um árabe teria em um “bar mitzvah”). E tais pessoas eram sempre mencionadas com grandes elogios e encômios, se fossem do mesmo bloco político ou com acusações e ataques pessoais se forem do grupo rival.
Depois disso, seguindo o roteiro da peça teatral da política cotidiana, veio o convite para que algumas de tais personalidades compusessem a mesa, sempre como se estivessem convidando a pessoa a se sentar com Deus personificado e seus anjos.
Os que foram chamados a ocupar os assentos na mesa foram: o prefeito, o presidente do legislativo da cidade, o juiz, o presidente do Rotary, e o decano dos advogados da cidade, o Dr. Siqueira Pedrosa, este último já meio senil.
O Sr. Amarido, depois de composta a mesa passou a palavra para o Prefeito.
O Prefeito da cidade era uma velha raposa política e um hábil orador. Começou falando do prazer de ter aquela autoridade ali presente, contou os fatos notórios que envolviam aquela ilustre autoridade e aproveitou para narrar os grandes projetos do seu governo. O político conseguiu transformar o que ele disse que seria “uma palavrinha antes da autoridade falar” em um discurso tipicamente eleitoreiro.
Depois disso, o Sr. Amarildo passou a palavra para o Dr. Siqueira Pedrosa, o grande decano da advocacia local. Ele sempre discursava em ocasiões semelhantes.
O advogado era um erudito. Conhecedor profundo do Direito, da Filosofia, da História, das Letras, do Latim, do Grego e de mais seis línguas. Era o presidente da Academia de Letras da cidade (que tinha apenas dez membros) e era professor universitário aposentado. Contudo, seus discursos eram um convite a uma boa soneca com lindos sonhos. Indo de textos gregos do grande Platão, passando pelos latinos com o estoicismo de Cícero, falando também sobre Kant, Hegel, Proust e Dostoievski, o grande jurista, depois de minutos torturantes chegava ao final da sua exposição, e geralmente a terminava citando Rui Barbosa. O problema não era o teor do discurso, mas sim a voz melíflua, sonora e aveludada do advogado e a sua forma de falar parecida com a de quem narra um “conto de fadas”. Era um acalanto para os ouvidos daquele público pouco acostumado com os discursos forenses.
Terminada a exposição do Dr. Siqueira Pedrosa e cedidos alguns minutos para alguns desavisados acordarem, o Sr. Amarildo resolveu passar a palavra ao “chefe da comitiva da Autoridade”, Dr. Atanael dos Santos Verkoswiack Bruges.
Esse doutor era um biólogo que não usava nenhum alfabeto conhecido. Só fazia uso da nomenclatura específica, equações e termos que só se liam em revistas e jornais especializados e que raramente apareciam por aquele fim de mundo. O público presente ora dormia, ora ficava com ar de quem estava vendo uma aparição demoníaca, um extra-terrestre (tentando contato, mas falando em sua língua natal) ou um canibal dizendo que o fogo estava aceso e que em dez minutos todos seriam cozidos em fogo brando, com molho de alcaparras.
Findo o discurso “ecológico” do jovem biólogo (sim, apesar do nome de cientista da Segunda Guerra Mundial, ele tinha pouco mais de 25 anos de idade), o Sr. Amarildo observou o texto com o restante do ritual da cerimônia.
Mal o Sr. Amarildo ia passar a palavra para o próximo orador, um grupo de pessoas gritando fora do recinto interrompe a cerimônia. Era um grupo de manifestantes que queria reivindicar do prefeito e do presidente da câmara o conserto de uma rua em um bairro da cidade. Como eles teimavam em ficar criando embaraços, o Sr. Amarildo aceitou receber no local um representante do movimento.
O manifestante (jovem, sujo de tinta e com cara de homem-bomba) fez o seu discurso também. Usou um dialeto parecido com o português, repleto de erros gramaticais. Os argumentos que ele utilizava eram de uma incoerência lógica flagrante, e sua oratória era recheada de expressões de efeito como “vamos à luta”, “classe operária” e outras semelhantes.
Depois desse discurso proletário (embora soasse meio ridículo um discurso proletário cobrando obras para tapar buracos em um bairro de classe média alta), o Sr. Amarildo ordenou a retirada das faixas, carro alegórico (sim, com moças dançando pagode e tudo mais. Criatividade não faltava para os movimentos proletários naquela cidade), carro de som e outras bobagens.
Pronto. Agora sim!! O momento pelo qual todos esperavam: A autoridade iria falar.
Um senhor calvo, levemente barrigudo, de bigode, se levantou e começou seu lento e polido discurso. Ele disse, em poucas palavras, que a autoridade não tinha como vir ao cerimonial e mandou ele, Dr. Artur Fontes Brigadeiro, para representá-lo e falar para o povo e autoridades locais em seu nome. Foi somente isso o que esse ilustre substituto conseguiu falar!
Foi o fim!
Foi como se arrancassem um pirulito da boca de uma criança faminta, e que nunca viu doce na vida. Todos começaram a reclamar, com veemência. Alguns chegando a impropérios bem duros, ofensivos e de baixo calão. Ouviam-se termos como “ultrajados”, “isso não se faz”, “queríamos ouvi-lo” e por ai foi.
Os doutores e burocratas deram de ombros e voltaram para o hotel, onde pegariam ônibus para o aeroporto na capital do estado.
No dia seguinte, a repercussão do ocorrido: o Prefeito mandou um ofício ao governador sobre a autoridade “omissa e que olha com pouco caso a nossa cidade”; o Legislativo votou e aprovou uma Moção de Repúdio àquela autoridade; os jornalecos locais atacaram pesadamente a autoridade e os tablóides sensacionalistas locais trouxeram ao público certos fatos negativos da vida da autoridade como uma suposta acusação de pedofilia, um filho ilegítimo com uma sem-terra, desvio de dinheiro, evasão de divisas, corrupção, e outras bobagens do gênero.
Resumo da noticia no principal jornal da capital do estado:
“MAL ESTAR"
Da reportagem local - O Dr. Alfredo Maciel de Arruda, por motivos ainda não esclarecidos, não pode comparecer a um evento na cidade interiorana de São José da Ribeirinha e mandou em seu lugar um substituto para representá-lo na cerimônia, Dr. Artur Fontes Brigadeiro. A cidade ficou perplexa e se sentiu ultrajada pela ausência dessa autoridade. A autoridade foi severamente repreendida pelo governador, que pediu desculpas à população local. O que ainda não ficou esclarecido é porque a população dessa cidade via tanta necessidade de um discurso proferido PESSOALMENTE por uma autoridade que iria falar exclusivamente sobre “As fezes humanas e sua relação com o meio ambiente”.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Solilóquio Noturno nº 01 - Opus 02 - por Fábio Zafiro Filho
É noite! Encerro o meu dia aqui, neste quarto escuro. Tenho agora a liberdade de poder sentir os meus pensamentos fluindo pela minha mente insana. Essa liberdade de cuja necessidade só tomamos consciência depois de vivermos, maquinalmente, mais um dia no universo dos humanos autômatos.
Deitado aqui em minha cama, penso, sinto, e existo. Sou um homem naturalmente livre, com meus pensamentos, dores e paixões. Nesse meu momento particular eu faço mais do que apenas viver.
Estou só? Solidão é apenas o “estar só” ou é a ausência de companhia humana? Se for a primeira opção estou só e, assim, sou livre. Se for a segunda, vivo a minha solidão, que é dolorida e me dá prazer.
O mundo se reduziu a um cômodo escuro, com uma cama, e poucos móveis. A luz se foi! O negrume da noite sonolenta apareceu e me torna filósofo de minha própria vida e da minha atual situação.
Ouço o som torturante de um relógio!
Estou preso aqui? Existem espaços por onde posso penetrar, onde minha mente poderá desbravar? Sinto-me acorrentado a uma vida material sem poder me libertar. Alguém colocou cadeados na mente humana? Alguém construiu um muro para que o pensamento ficasse retido dentro do cérebro humano ou mesmo dentro de um quarto escuro?
Penso que estou no alto de uma montanha, olhando o horizonte, com um final de tarde róseo e levemente acinzentado. Pássaros amarelos e brancos cruzam o céu, que é de um azul magnífico. O vento suave vem tocar os meus cabelos e arejar a minha alma.
O mundo não se importa com a minha alegria ou com a minha dor. Ninguém vai ficar apontando e dizendo: “Olha, como ele está feliz vendo o horizonte”. A felicidade dos outros nos é sempre dolorosa.
Estar feliz com um horizonte imaginário? Sou louco? Sim, a loucura nem sempre deve ser interpretada como doença ou como qualidade negativa. Loucura, às vezes, é necessária. Talvez a loucura traga também felicidade. Talvez a dor seja estarmos impregnados do mundo material na sua frágil realidade.
O meu pensamento voa, como um albatroz no mar. Flutua como uma pena na tempestade ou como uma flor na brisa primaveril. Basta pensar e já estou longe de mim, de onde estou, e do que sou!
Pensando, eu me sinto perto de tudo e longe do nada da minha pseudo-solidão humana. Ao pensar, sou livre e me sinto em movimento, absorvendo o universo exterior a minha volta.
E toda essa filosofia ou psicologia surge de elucubrações de um sujeito qualquer em meio a um início de sono. São apenas reflexões de uma mente em busca de espaços e explorando seus limites, e isso quando inicia o seu lento processo de adormecimento.
O pensamento é livre e é o recanto mais íntimo da liberdade humana. No pensamento, o homem pode ser aquilo que ele quiser ser. Não existem regras que ele (homem) não possa romper quando pensa, porque o seu pensamento é o seu universo. Nada interfere nele.
Penso e, disso, concluo: Sou livre.
O pensamento é uma ave ligeira que atravessa mares, rios e montanhas, mas que sempre retorna ao seu ninho. Ele também pode atravessar a linha imaginária do Tempo e procurar imagens de um passado longínquo nos arquivos da memória ou usar o artifício da imaginação para criar cenas de um futuro belo e promissor!
O que pensamento humano não pode? O que a imaginação humana não consegue criar?
Tanto se diz e se fala sobre o universo exterior. O homem busca explorar as fronteiras do espaço e os limites do seu corpo, planejando viagens a outros planetas, voando pelos ares ou mergulhando em águas profundas. Mas, tão pouco se diz sobre a busca do universo infinito existente no interior da mente humana, no interior do homem.
Em nossa mente existem recantos paradisíacos, cheios de doçura e beleza, paisagens calmas e sóbrias, desertos áridos, oceanos profundos e mares tempestuosos, vales sombrios e lúgubres, e toda a sorte de imagens, sons, odores e sensações. Há espaço para a dor e para a felicidade. Encontramos lá a amizade, o amor, o desejo, mas também o sofrimento, as culpas, a autocrítica e a condenação.
Vivemos na superfície desse universo, nadando e respirando, mas com muito medo de mergulhar nas profundezas. Poucos descem às grandes profundidades e raros gostam dessa região inexplorada e aparentemente inóspita. A ampla maioria sequer conhece que embaixo da sua consciência racional e sensual existe todo um universo. Ao mergulharmos nele nos sentimos transportados para outros níveis de autoconhecimento, para novos caminhos e novas certezas.
O som torturante do relógio traz de novo até mim a realidade fenomênica. Mas, até quando este mundo material exterior é real e até quando é uma projeção, um sonho? Ou será que tudo sempre será um eterno sonho, que se repete?
Será a matéria real? Só a temos por real porque a sentimos e a concebemos dentro de conceitos lingüísticos, históricos, filosóficos e científicos, desenvolvidos e fixados na nossa “tradição mental humana”.
Pensamentos. Pensamentos. Minha mente flutua na suave aragem noturna. Até onde um pensamento lógico e perscrutador como o meu consegue indagar? Não há limites. Os limites do meu pensamento são os limites do meu conhecimento, do meu raciocínio e da minha lógica.
Não sou filósofo! Não sou psicólogo! Não sou médico! Meu pensamento não precisa de rótulos, diplomas, congratulações, encômios, títulos, platéias, reconhecimento atual ou póstumo e popularidade. Apenas penso, logo sou livre, logo existo, sinto e vivo, logo busco meu próprio universo.
Apenas penso e o meu pensar me liberta. E, aos poucos, o meu próprio universo interior surge perante mim!
Pensar muito entorpece. O sono começou sua longa luta para me dominar e vencer. E certamente o fará. Resta a mim a doce esperança de uma noite com sonhos suaves.
Despeço-me.
Deitado aqui em minha cama, penso, sinto, e existo. Sou um homem naturalmente livre, com meus pensamentos, dores e paixões. Nesse meu momento particular eu faço mais do que apenas viver.
Estou só? Solidão é apenas o “estar só” ou é a ausência de companhia humana? Se for a primeira opção estou só e, assim, sou livre. Se for a segunda, vivo a minha solidão, que é dolorida e me dá prazer.
O mundo se reduziu a um cômodo escuro, com uma cama, e poucos móveis. A luz se foi! O negrume da noite sonolenta apareceu e me torna filósofo de minha própria vida e da minha atual situação.
Ouço o som torturante de um relógio!
Estou preso aqui? Existem espaços por onde posso penetrar, onde minha mente poderá desbravar? Sinto-me acorrentado a uma vida material sem poder me libertar. Alguém colocou cadeados na mente humana? Alguém construiu um muro para que o pensamento ficasse retido dentro do cérebro humano ou mesmo dentro de um quarto escuro?
Penso que estou no alto de uma montanha, olhando o horizonte, com um final de tarde róseo e levemente acinzentado. Pássaros amarelos e brancos cruzam o céu, que é de um azul magnífico. O vento suave vem tocar os meus cabelos e arejar a minha alma.
O mundo não se importa com a minha alegria ou com a minha dor. Ninguém vai ficar apontando e dizendo: “Olha, como ele está feliz vendo o horizonte”. A felicidade dos outros nos é sempre dolorosa.
Estar feliz com um horizonte imaginário? Sou louco? Sim, a loucura nem sempre deve ser interpretada como doença ou como qualidade negativa. Loucura, às vezes, é necessária. Talvez a loucura traga também felicidade. Talvez a dor seja estarmos impregnados do mundo material na sua frágil realidade.
O meu pensamento voa, como um albatroz no mar. Flutua como uma pena na tempestade ou como uma flor na brisa primaveril. Basta pensar e já estou longe de mim, de onde estou, e do que sou!
Pensando, eu me sinto perto de tudo e longe do nada da minha pseudo-solidão humana. Ao pensar, sou livre e me sinto em movimento, absorvendo o universo exterior a minha volta.
E toda essa filosofia ou psicologia surge de elucubrações de um sujeito qualquer em meio a um início de sono. São apenas reflexões de uma mente em busca de espaços e explorando seus limites, e isso quando inicia o seu lento processo de adormecimento.
O pensamento é livre e é o recanto mais íntimo da liberdade humana. No pensamento, o homem pode ser aquilo que ele quiser ser. Não existem regras que ele (homem) não possa romper quando pensa, porque o seu pensamento é o seu universo. Nada interfere nele.
Penso e, disso, concluo: Sou livre.
O pensamento é uma ave ligeira que atravessa mares, rios e montanhas, mas que sempre retorna ao seu ninho. Ele também pode atravessar a linha imaginária do Tempo e procurar imagens de um passado longínquo nos arquivos da memória ou usar o artifício da imaginação para criar cenas de um futuro belo e promissor!
O que pensamento humano não pode? O que a imaginação humana não consegue criar?
Tanto se diz e se fala sobre o universo exterior. O homem busca explorar as fronteiras do espaço e os limites do seu corpo, planejando viagens a outros planetas, voando pelos ares ou mergulhando em águas profundas. Mas, tão pouco se diz sobre a busca do universo infinito existente no interior da mente humana, no interior do homem.
Em nossa mente existem recantos paradisíacos, cheios de doçura e beleza, paisagens calmas e sóbrias, desertos áridos, oceanos profundos e mares tempestuosos, vales sombrios e lúgubres, e toda a sorte de imagens, sons, odores e sensações. Há espaço para a dor e para a felicidade. Encontramos lá a amizade, o amor, o desejo, mas também o sofrimento, as culpas, a autocrítica e a condenação.
Vivemos na superfície desse universo, nadando e respirando, mas com muito medo de mergulhar nas profundezas. Poucos descem às grandes profundidades e raros gostam dessa região inexplorada e aparentemente inóspita. A ampla maioria sequer conhece que embaixo da sua consciência racional e sensual existe todo um universo. Ao mergulharmos nele nos sentimos transportados para outros níveis de autoconhecimento, para novos caminhos e novas certezas.
O som torturante do relógio traz de novo até mim a realidade fenomênica. Mas, até quando este mundo material exterior é real e até quando é uma projeção, um sonho? Ou será que tudo sempre será um eterno sonho, que se repete?
Será a matéria real? Só a temos por real porque a sentimos e a concebemos dentro de conceitos lingüísticos, históricos, filosóficos e científicos, desenvolvidos e fixados na nossa “tradição mental humana”.
Pensamentos. Pensamentos. Minha mente flutua na suave aragem noturna. Até onde um pensamento lógico e perscrutador como o meu consegue indagar? Não há limites. Os limites do meu pensamento são os limites do meu conhecimento, do meu raciocínio e da minha lógica.
Não sou filósofo! Não sou psicólogo! Não sou médico! Meu pensamento não precisa de rótulos, diplomas, congratulações, encômios, títulos, platéias, reconhecimento atual ou póstumo e popularidade. Apenas penso, logo sou livre, logo existo, sinto e vivo, logo busco meu próprio universo.
Apenas penso e o meu pensar me liberta. E, aos poucos, o meu próprio universo interior surge perante mim!
Pensar muito entorpece. O sono começou sua longa luta para me dominar e vencer. E certamente o fará. Resta a mim a doce esperança de uma noite com sonhos suaves.
Despeço-me.
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