domingo, 6 de junho de 2010

"Três cenas fugazes do cotidiano", Opus 4, by Fabio Zafiro Fiho




CENA 01 - INDO PARA CASA



Sérgio desceu do carro e aguardou que o motorista do táxi abrisse o porta-malas. Retirou sua bagagem e pagou a corrida.

Estava finalmente indo embora para casa. Depois de longas semanas trabalhando em uma obra longe do lar, Sérgio estava feliz por poder retornar.

A Rodoviária daquela pequena cidade do interior estava quase vazia naquele momento. Eram seis horas da manhã.

Ele sentou em um dos bancos aguardando a chegada do ônibus que o levaria para casa. Estava com muitas saudades dos filhos e da mulher. Já havia telefonado avisando de sua saída e a turma toda o estaria esperando quando chegasse na sua cidade.

Sérgio também sabia que iria deixar muitos amigos ali e isso fazia com que ele ficasse triste. Aquelas pessoas o acolheram como um irmão e agora teriam que suportar a sua partida.

O trabalho foi árduo e difícil, mas Sérgio poderia agora comprar a casa que sempre prometera para sua mulher. A obra havia lhe proporcionado dinheiro suficiente para comprar uma casa pequena ou um apartamento.

A obra ainda lhe rendeu uma porção de novos clientes. Ele tinha agora vários projetos para desenvolver. Com tais projetos, Sérgio ganhará mais dinheiro e garantirá um futuro feliz para ele e sua família. O melhor disso tudo é que não precisaria viajar novamente.

Sérgio começou a observar o local onde estava.

Além dele, um jovem casal e uma senhora idosa aguardavam a chegada de seus respectivos ônibus.

Sérgio viu que a lanchonete da Rodoviária estava aberta e decidiu comer algo antes de entrar no ônibus. Ele não havia comido nada e não gostava de viajar de estômago vazio.

Levantou-se e seguiu para a lanchonete levando consigo a bagagem.

-- Pois não - indagou o moço, bocejando.

-- Me dê um Bauru e um café – respondeu Sérgio.

Um menino passou com um apito na boca, vestido com um uniforme escolar e gesticulando. Alguns funcionários riam e brincavam com ele e outros tomavam o apito dele e escondiam. O menino enlouquecia e com muito custo conseguia o apito de volta.

-- O que há com o menino? – perguntou Sérgio para o rapaz da lanchonete.

-- É meio doido da cabeça. Fica apitando a manhã toda e os guardas são obrigados a leva-lo para um albergue ou para a casa da avó dele.

-- Ninguém consegue controlar o garoto? – insistiu Sérgio

-- A gente até que gosta dele, mas é difícil aturar um moleque apitando no seu ouvido o dia todo. Tem vezes que ele até rouba uns doces ou algum dinheiro do caixa, se a gente não fica atento – respondeu o moço da lanchonete.

O menino tinha realmente um ar de louco. Parecia que não compreendia uma palavra do que lhe falavam. Só queria assoprar o apito e mais nada.

-- O senhor não sabe de nada. Isso aqui é um hospício. Tem um homem que vem pregar aqui ao meio-dia e à meia-noite, amolando os passageiros e espantando a freguesia. Quando chamam a polícia ele sai gritando tão alto que parece que está sendo linchado – comentou o moço da lanchonete.


-- Esses pobres coitados existem em todas as cidades e aos montes.

-- Mas, o senhor não sabe. Ontem o meu sócio estava aqui no meu lugar por volta das dez da noite quando um velho de seus setenta anos chega e diz que está querendo um suco de maracujá. O meu colega brincou dizendo que ele deveria estar é precisando de sexo. E o velho não convida o meu colega para ir para a casa dele para uma noite de sexo? – comenta o rapaz da lanchonete rindo muito.

-- É uma situação chata. E o que ele disse? – perguntou Sérgio

-- Que ele não jogava nesse time, que o negócio dele é mulher e só mulher. O velho acabou se desculpando e sumiu. – respondeu o moço da lanchonete.

-- Ele deve ter achado que o seu sócio estava dando uma cantada nele — comentou Sérgio.

Nisso chega o Bauru e o café. Sérgio paga e come rapidamente. Estava com muita pressa e muitas saudades dos filhos e da mulher.



CENA 02 - O DISTINTO SENHOR



Nem sempre a vida traz bons momentos, belos sorrisos e risadas estrondosas. Na verdade, os acontecimentos tristes são comuns e numerosos, o que faz da existência humana algo complexo e difícil de compreender.

Nisso e em outras coisas pensava aquele senhor vestido de calça escura, camisa branca e sapatos pretos. Esse homem coçava o nariz e, sentado no banco da praça, pensava na estupidez dos homens.


Recordava-se da sua existência triste e amarga, dos seus vícios, dos seus medos e dos acontecimentos. Sim, os malditos acontecimentos. Por que os fatos são tão importantes? Por quê?

Um jovem de seus vinte e poucos anos chega perto dele e pergunta:

-- Onde fica a Rua 07 de abril?

-- O que pretende fazer lá? – questionou o distinto senhor

-- Preciso ir ao banco pagar dívidas. E o senhor? Está só na mordomia, né? Deve ser aposentado e vive agora só descansando as pernas e filosofando. Eh, vidão – disse essa última palavra quase aos berros.

-- Vidão? – perguntou o distinto senhor, pasmo.

-- Sim, vidão. Enquanto o senhor fica ai sonhando com as conquistas amorosas do passado, eu tenho que pagar uma prestação atrasada do financiamento do meu carro e terei de pagar com juros e mais umas bobagens - disse, consultando uma papelada.

-- Como você sabe se eu não tenho problemas maiores que os seus? – perguntou o distinto senhor.

-- Problemas? O senhor? O que seria? Um reumatismo? Osteoporose? Diabetes? --- perguntava rindo o jovem.

-- Como vocês são tolos e estúpidos! Você acha que uma pessoa velha nunca teve problemas? – perguntou o distinto senhor, espantado.

-- Talvez, mas os problemas da sua época eram fáceis de serem resolvidos. Hoje temos muitos problemas difíceis e complexos que pessoas da sua época não saberiam resolver – respondeu o rapaz, com ares de PHD de Universidade estrangeira.

-- Espero que no futuro apareça um jovem e diga a você que esses problemas que você diz serem quase insolúveis eram coisas imbecis e que os problemas dele é que são complicados. Você erra, meu rapaz. Todos os problemas são complicados.

-- Me diga um problema da sua época que eu não possa resolver – desafiou o rapaz.

-- Tive vários problemas que vocês não têm e outros que vocês, com computadores, máquinas e botões, não conseguem resolver.

-- Fala um! – disse o moço, incisivamente.

-- A fome, a guerra, o medo, a opressão, o racismo, os crimes, quer mais?

-- Mas isso diminuiu na minha época – respondeu o rapaz

-- Não, esses problemas apenas se modificaram.

-- A humanidade evoluiu – disse o rapaz, mas meio sem ânimo.

-- Não, ela apenas se transformou, mas manteve velhos princípios e comete os mesmos erros. Os problemas continuam os mesmos, só que com roupas novas e outros nomes.

-- Mas, a vida de hoje é melhor que a vida na década de 40 ou 50.

-- Como você sabe? Você viveu nessas épocas? Provavelmente você leu o que um economista ou historiador idiota escreveu em um jornal ou em um livro escolar qualquer e acha que sabe comparar épocas tão diferentes.

-- Tá, meu senhor, o que realmente te aflige? Qual o seu problema? Afinal, o senhor fala como se tivesse problemas descomunais a ponto do meu problema com a dívida vencida ser algo completamente idiota.

-- Tenho sim. Vários problemas.

-- Estou ouvindo.

-- Quer saber qual deles?

-- O mais importante. Depois os menores. Pode ser assim

O jovem senta no banco ao lado do senhor.

-- Filho, os meus problemas podem até lhe soar simples, mas são complexos. Eu briguei com meus filhos, estou vivendo da ajuda de pessoas de bom coração, perdi minha mulher, todos os meus amigos já faleceram, e nada me resta nesta vida.

-- São problemas bem comuns para a sua idade.

-- Podem até ser comuns, mas fazem com que a minha vida pareça vazia e sem sentido. O único sentido que encontro é sentar aqui e me lembrar no passado: os passeios que fazia com meus filhos, o nascimento dos meus netos, o meu casamento, os meus carros, os meus amigos de infância e da mocidade, as festas...—nesse ponto o distinto senhor começa a chorar.

-- Mas, ninguém vem te visitar ou te manda uma carta? Vive sem ninguém?

-- Sem ninguém — diz o senhor, limpando o rosto com um lenço que tira do bolso - nesse mundo que você diz ser melhor, mas que para mim é um mundo louco.

-- Talvez realmente seja.

-- Não sou desse mundo de vocês. Sou daquele mundo antigo, perdido para sempre. Meu lugar é lá com minha mulher, meus parentes e amigos e não aqui com esses filhos idiotas e sem amor.

-- Nunca faria isso com meu pai.

-- Creio que você diz a verdade, pois aparenta ser um garoto bom – disse o velho, sorrindo para o rapaz, e depois prosseguiu - Mas, mesmo estando bem com meus filhos, eu me sentiria isolado.

-- Já quiseram te mandar para um asilo?

-- Já, por isso que sai da casa de um deles para nunca mais voltar. Alguns vizinhos meus me dão o suficiente para comer e pagam meus remédios e assim vou levando a vida.

-- Boas almas.

-- Sim, mas até quando serão boas almas? Sempre surge uma esposa encrenqueira, um cunhado chato que aconselha à pessoa de bom coração que eu teria que pedir dinheiro para o governo. É claro que, tempos depois da pessoa parar de me ajudar, o conselheiro irá lhe pedir um empréstimo.

-- Esse mundo é ruim.

-- Sempre foi. As pessoas idolatram o dinheiro, o orgulho, a vaidade, e deixam o amor como última opção. São uns tolos.

-- Desculpe-me, meu senhor, mas já são quase quatro horas e o banco irá fechar. Embora os seus problemas possam até ser piores que os meus, não posso ficar aqui conversando enquanto a minha dívida aumenta – disse o rapaz, se levantando.

-- Vá, meu filho. Continuarei aqui relembrando o meu passado e fugindo do meu presente.



CENA 03 - O VICIADO




O vício é, talvez, o maior problema da sociedade atual. O viciado é uma pessoa doente que deve ser tratada e não um pária, um delinqüente.

Todos podem ter vício.

Foi esta a lição que teve o Dr. Lacerda Castro, ilustre psicanalista, membro de várias instituições internacionais, Doutor em Psicologia pela Universidade de Bonn e professor universitário.

O Dr. Lacerda Castro tem consultório no bairro mais rico da Capital há mais de 17 anos, tendo 22 anos de profissão.

Um dia entrou em sua sala, para uma consulta, um senhor de 52 anos de idade, alto, calvo, aparentando estar muito calmo.

Depois de colher todos os dados do paciente, o Dr. Lacerda pede para que ele se deite, confortavelmente, no divã.

-- Doutor, tenho um problema – disse ele, deitando-se no divã.

-- Certo, diga qual é – respondeu o psicólogo, com calma.

-- Eu sou um viciado – disse, sem medo, o paciente.

O Dr. Lacerda já havia atendido uma infinidade de casos de drogas, álcool, cigarro, obesidade, depressão e casos parecidos. Sabia o que iria ouvir.

-- Como você se tornou um viciado? – perguntou o Dr. Lacerda, indo direito ao assunto.

-- Não sei, nunca via isso como um vício – respondeu o paciente – mas agora sei que estou viciado mesmo.

-- Diga: como começou? – insistiu o psicólogo.

-- Foi fácil, estava tudo diante de mim – murmurou o paciente – era muito fácil.

-- Você se tornou viciado com facilidade? É isso que você quer dizer? – pergunta o psicólogo.

-- Sim. Era bom, pois havia prazer. Todos fazem. É fácil. Está em todo lugar.

“Deve ser cigarro ou problemas sexuais.” – pensou o Dr. Lacerda.

-- Você gastava muito dinheiro com o vício? – perguntou o psicólogo

-- Não. Com o vício não

-- Então era um prazer fácil? – questionou o psicólogo.

-- Sim, era muito fácil – respondeu o paciente.

-- Diga-me sobre sua vida familiar – perguntou o psicólogo.

“Deve ser problema sexual. Homossexualismo ou algum desvio de comportamento” - pensou o psicólogo.

-- Sou solteiro, vivo sozinho, tenho namorada há seis anos. Tudo normal – respondeu o paciente.

“Homossexualismo, sem dúvida” – pensou o psicólogo – “ ele crê que é um vício“

-- Você tem amigos? – perguntou o Dr. Lacerda

-- Tenho vários: do trabalho, vizinhos... — respondeu o paciente.

-- Como é seu envolvimento com eles? – perguntou o psicólogo.

-- Bom, muito bom. Doutor, quando é que vamos entrar no assunto. Estou cansado dessas perguntas preliminares. —respondeu o paciente

“Ele mordeu a isca“ pensou o especialista

-- Essas perguntas são difíceis para você? – perguntou o Dr. Lacerda.

-- De forma alguma, mas é que estamos bem longe do meu vício — respondeu o paciente.

“Há algo errado. Vou deixa-lo falar diretamente” – pensou o psicólogo.

-- Diga então, qual é esse vício – perguntou o psicólogo.

-- Sou viciado em Televisão – respondeu o paciente. Ficou quieto por uns segundos e continuou – estou aliviado por ter dito isso.

“Acho que quem vai ter que fazer uma análise sou eu“ – pensou, brincando, o psicólogo.

-- Eu pensei que fosse algo sexual, mas você me surpreendeu. Por que acha que está viciado? – perguntou o Psicólogo.

-- Sexual? Nessa área eu estou bem. É a TV mesmo. Eu não vivo sem ela. Sou dependente dela.

-- Ninguém é dependente de um aparelho de TV. Isso não existe.

-- Então por que eu não consigo largar esse vício?

-- Me conte como isso começou

-- No começo, eu assistia TV somente como curiosidade. Ficava vendo os telejornais e as novelas, mas sem ficar seguindo os capítulos. Era algo normal e agradável e me dava muito prazer. Depois começou a ficar mais forte.

-- Continue

-- Vieram os filmes. Eu via todos, todos os tipos. Adorava, amava cada cena, ficava entusiasmado, até brigava com os bandidos. Era muito bom. Depois comecei a ver desenhos animados. Ai foi demais. Aqueles animais falando, aquelas histórias quase sem sentido, a fantasia me deixava doidão.

-- E depois?

-- Depois vieram os programas infantis: aquela bagunça toda com crianças gritando e chorando, apresentadoras, uma mais linda que a outra, e mais desenhos animados. Eu ficava em êxtase. Daí vieram os jogos de futebol e as corridas de Formula 1. Eu ficava cada vez mais ligado. Não conseguia ficar sem assistir. Cada jogo era como um antídoto para a dor da realidade.

-- E?

-- Daí eu passei para os programas de auditório: aqueles artistas dublando e cantando com playback se tornaram a minha única fonte de inspiração. Aquelas mulheres gritando no auditório; aquilo tudo me fazia delirar. Eu não podia viver sem aquilo. Depois vieram os programas de perguntas e respostas e todos os outros que se seguiram.

-- Continue. Fale tudo

-- Eu não vivia mais. Só pensava em TV. Só falava em TV o dia todo. As pessoas até ficavam bravas comigo e perdi algumas amizades. Mas a maioria das pessoas também é viciada como eu e todos ficam te empurrando para o vício.

-- Você tentou resolver esse dilema?

-- Tentei, mas acabei passando para coisas mais pesadas.

-- Crack, heroína? – perguntou o Dr. Lacerda, na tentativa de encontrar um problema mais normal de se resolver.

-- Doutor! Não, drogas não! Eu me vicei também em filmes pornôs.

O Psicólogo estava completamente confuso.

-- E como isso se deu? – perguntou o especialista

-- Primeiro eu pegava um filme por mês, depois passou para um por semana, depois para um por dia. Hoje vejo três por dia. Eu me viciei em ver aquelas cenas quentes.

-- Eu não te disse que havia algo sexual – disse o Psicólogo.

-- Doutor veja bem: Eu só assistia; eu ficava entusiasmado, óbvio, mas o prazer era o de assistir. Eu nem ligava para o sexo. Eu queria é ver aquelas cenas, todas as cenas, os corpos, os órgãos sexuais, os gemidos, tudo.

-- Que tipo de filme você via?

-- Todos. Filmes de heterossexuais, homossexuais, bissexuais, sexo com animais, sexo grupal, tudo.

-- E o que mais te interessava?

-- Sexo grupal. Cenas com mais de seis pessoas me deixava doido.

-- Mas você se excitava?

-- Não. Nem ereção eu tinha.

-- E o que te atraía nos filmes? Sem excitação, tais filmes deixam de ter qualquer atratividade.

-- Eu assistia para ver aquelas cenas, aqueles corpos se penetrando. É emocionante, mas não me excitava.

-- Você se excita normalmente?

-- Claro, com minha namorada.

A consulta havia terminado. Fora marcada outra consulta para dali a uma semana.

O Psicólogo não compreendia bem qual a doença do paciente. Teria ele alguma Neurose por vídeos ou seria uma afeição por imagens? Era, até aquele momento, incompreensível. Talvez, com mais umas duas consultas ele teria como saber qual o problema.

Cansado de trabalhar, o médico foi para casa assistir um programa de auditório, que ele não perdia por nada nesse mundo, e, depois, iria ver aquele filme pornô que ele havia alugado ontem. Iria ver o filme a noite toda. Também não poderia esquecer de assistir a novela das oito (eram momentos decisivos) e os filmes do final de semana.

Antes de ligar a TV ele pensou: “Que pena! Viciado nesse aparelho? Deve ser um psicótico”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Grande Autoridade", Opus 03, by Fabio Zafiro Filho

Havia muita gente no auditório naquela sexta-feira chuvosa de Outono. Os lugares estavam todos ocupados e tinha muitas pessoas em pé disputando milímetros de espaço para obter uma melhor visão.

A ansiedade era a tônica daquele momento. Afinal, o pronunciamento daquela autoridade era esperado há vários dias.

Era um grande evento: A imprensa toda estava ali, embora se resumisse apenas a jovens repórteres dos jornalecos da região, meia dúzia do pessoal das rádios locais com seus gravadores e uma equipe de reportagem, enfadada e chateada, de uma emissora afiliada a uma grande rede de TV nacional.

Personalidades locais também estavam presentes: o prefeito local e seu séqüito de asseclas, secretários, burocratas e outros tipos de sanguessugas; membros do legislativo municipal e assessores; o juiz e o promotor de justiça da comarca; advogados, médicos, engenheiros e demais profissionais liberais; lideranças estudantis e sindicais; membros de grupos assistenciais, entidades religiosas e de preservação do meio ambiente, grupos raciais, além de outros representantes da sociedade civil local.

Muito barulho, como era costume em eventos desse tipo.

O pronunciamento estava marcado para as três horas da tarde e já havia gente no recinto desde as onze da manhã.

Alguma movimentação e um grupo de senhores engravatados se aproximou da mesa onde aquela autoridade discursaria. Eram pessoas muito sérias, compenetradas, com suas valises e computadores de última geração e todos eles com aquele ar de “intelectuais de Harvard indo falar com idiotas” que vários cientistas e burocratas ostentam.

Quem abriu a cerimônia foi o presidente da associação dos comerciantes local: Sr. Amarildo Rosa, dono de uma importante rede de papelarias, quase falido.

Mas a abertura do cerimonial seguiu aquele “protocolo” nauseante e enervante de citar todas as personalidades políticas, civis e militares (sim, estavam lá também representantes das Forças Armadas, mas com a mesma boa vontade e dedicação que um árabe teria em um “bar mitzvah”). E tais pessoas eram sempre mencionadas com grandes elogios e encômios, se fossem do mesmo bloco político ou com acusações e ataques pessoais se forem do grupo rival.

Depois disso, seguindo o roteiro da peça teatral da política cotidiana, veio o convite para que algumas de tais personalidades compusessem a mesa, sempre como se estivessem convidando a pessoa a se sentar com Deus personificado e seus anjos.

Os que foram chamados a ocupar os assentos na mesa foram: o prefeito, o presidente do legislativo da cidade, o juiz, o presidente do Rotary, e o decano dos advogados da cidade, o Dr. Siqueira Pedrosa, este último já meio senil.

O Sr. Amarido, depois de composta a mesa passou a palavra para o Prefeito.

O Prefeito da cidade era uma velha raposa política e um hábil orador. Começou falando do prazer de ter aquela autoridade ali presente, contou os fatos notórios que envolviam aquela ilustre autoridade e aproveitou para narrar os grandes projetos do seu governo. O político conseguiu transformar o que ele disse que seria “uma palavrinha antes da autoridade falar” em um discurso tipicamente eleitoreiro.

Depois disso, o Sr. Amarildo passou a palavra para o Dr. Siqueira Pedrosa, o grande decano da advocacia local. Ele sempre discursava em ocasiões semelhantes.

O advogado era um erudito. Conhecedor profundo do Direito, da Filosofia, da História, das Letras, do Latim, do Grego e de mais seis línguas. Era o presidente da Academia de Letras da cidade (que tinha apenas dez membros) e era professor universitário aposentado. Contudo, seus discursos eram um convite a uma boa soneca com lindos sonhos. Indo de textos gregos do grande Platão, passando pelos latinos com o estoicismo de Cícero, falando também sobre Kant, Hegel, Proust e Dostoievski, o grande jurista, depois de minutos torturantes chegava ao final da sua exposição, e geralmente a terminava citando Rui Barbosa. O problema não era o teor do discurso, mas sim a voz melíflua, sonora e aveludada do advogado e a sua forma de falar parecida com a de quem narra um “conto de fadas”. Era um acalanto para os ouvidos daquele público pouco acostumado com os discursos forenses.

Terminada a exposição do Dr. Siqueira Pedrosa e cedidos alguns minutos para alguns desavisados acordarem, o Sr. Amarildo resolveu passar a palavra ao “chefe da comitiva da Autoridade”, Dr. Atanael dos Santos Verkoswiack Bruges.

Esse doutor era um biólogo que não usava nenhum alfabeto conhecido. Só fazia uso da nomenclatura específica, equações e termos que só se liam em revistas e jornais especializados e que raramente apareciam por aquele fim de mundo. O público presente ora dormia, ora ficava com ar de quem estava vendo uma aparição demoníaca, um extra-terrestre (tentando contato, mas falando em sua língua natal) ou um canibal dizendo que o fogo estava aceso e que em dez minutos todos seriam cozidos em fogo brando, com molho de alcaparras.

Findo o discurso “ecológico” do jovem biólogo (sim, apesar do nome de cientista da Segunda Guerra Mundial, ele tinha pouco mais de 25 anos de idade), o Sr. Amarildo observou o texto com o restante do ritual da cerimônia.

Mal o Sr. Amarildo ia passar a palavra para o próximo orador, um grupo de pessoas gritando fora do recinto interrompe a cerimônia. Era um grupo de manifestantes que queria reivindicar do prefeito e do presidente da câmara o conserto de uma rua em um bairro da cidade. Como eles teimavam em ficar criando embaraços, o Sr. Amarildo aceitou receber no local um representante do movimento.

O manifestante (jovem, sujo de tinta e com cara de homem-bomba) fez o seu discurso também. Usou um dialeto parecido com o português, repleto de erros gramaticais. Os argumentos que ele utilizava eram de uma incoerência lógica flagrante, e sua oratória era recheada de expressões de efeito como “vamos à luta”, “classe operária” e outras semelhantes.

Depois desse discurso proletário (embora soasse meio ridículo um discurso proletário cobrando obras para tapar buracos em um bairro de classe média alta), o Sr. Amarildo ordenou a retirada das faixas, carro alegórico (sim, com moças dançando pagode e tudo mais. Criatividade não faltava para os movimentos proletários naquela cidade), carro de som e outras bobagens.

Pronto. Agora sim!! O momento pelo qual todos esperavam: A autoridade iria falar.

Um senhor calvo, levemente barrigudo, de bigode, se levantou e começou seu lento e polido discurso. Ele disse, em poucas palavras, que a autoridade não tinha como vir ao cerimonial e mandou ele, Dr. Artur Fontes Brigadeiro, para representá-lo e falar para o povo e autoridades locais em seu nome. Foi somente isso o que esse ilustre substituto conseguiu falar!

Foi o fim!

Foi como se arrancassem um pirulito da boca de uma criança faminta, e que nunca viu doce na vida. Todos começaram a reclamar, com veemência. Alguns chegando a impropérios bem duros, ofensivos e de baixo calão. Ouviam-se termos como “ultrajados”, “isso não se faz”, “queríamos ouvi-lo” e por ai foi.

Os doutores e burocratas deram de ombros e voltaram para o hotel, onde pegariam ônibus para o aeroporto na capital do estado.

No dia seguinte, a repercussão do ocorrido: o Prefeito mandou um ofício ao governador sobre a autoridade “omissa e que olha com pouco caso a nossa cidade”; o Legislativo votou e aprovou uma Moção de Repúdio àquela autoridade; os jornalecos locais atacaram pesadamente a autoridade e os tablóides sensacionalistas locais trouxeram ao público certos fatos negativos da vida da autoridade como uma suposta acusação de pedofilia, um filho ilegítimo com uma sem-terra, desvio de dinheiro, evasão de divisas, corrupção, e outras bobagens do gênero.

Resumo da noticia no principal jornal da capital do estado:

MAL ESTAR"

Da reportagem local - O Dr. Alfredo Maciel de Arruda, por motivos ainda não esclarecidos, não pode comparecer a um evento na cidade interiorana de São José da Ribeirinha e mandou em seu lugar um substituto para representá-lo na cerimônia, Dr. Artur Fontes Brigadeiro. A cidade ficou perplexa e se sentiu ultrajada pela ausência dessa autoridade. A autoridade foi severamente repreendida pelo governador, que pediu desculpas à população local. O que ainda não ficou esclarecido é porque a população dessa cidade via tanta necessidade de um discurso proferido PESSOALMENTE por uma autoridade que iria falar exclusivamente sobre “As fezes humanas e sua relação com o meio ambiente”.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Solilóquio Noturno nº 01 - Opus 02 - por Fábio Zafiro Filho

É noite! Encerro o meu dia aqui, neste quarto escuro. Tenho agora a liberdade de poder sentir os meus pensamentos fluindo pela minha mente insana. Essa liberdade de cuja necessidade só tomamos consciência depois de vivermos, maquinalmente, mais um dia no universo dos humanos autômatos.

Deitado aqui em minha cama, penso, sinto, e existo. Sou um homem naturalmente livre, com meus pensamentos, dores e paixões. Nesse meu momento particular eu faço mais do que apenas viver.

Estou só? Solidão é apenas o “estar só” ou é a ausência de companhia humana? Se for a primeira opção estou só e, assim, sou livre. Se for a segunda, vivo a minha solidão, que é dolorida e me dá prazer.

O mundo se reduziu a um cômodo escuro, com uma cama, e poucos móveis. A luz se foi! O negrume da noite sonolenta apareceu e me torna filósofo de minha própria vida e da minha atual situação.

Ouço o som torturante de um relógio!

Estou preso aqui? Existem espaços por onde posso penetrar, onde minha mente poderá desbravar? Sinto-me acorrentado a uma vida material sem poder me libertar. Alguém colocou cadeados na mente humana? Alguém construiu um muro para que o pensamento ficasse retido dentro do cérebro humano ou mesmo dentro de um quarto escuro?

Penso que estou no alto de uma montanha, olhando o horizonte, com um final de tarde róseo e levemente acinzentado. Pássaros amarelos e brancos cruzam o céu, que é de um azul magnífico. O vento suave vem tocar os meus cabelos e arejar a minha alma.

O mundo não se importa com a minha alegria ou com a minha dor. Ninguém vai ficar apontando e dizendo: “Olha, como ele está feliz vendo o horizonte”. A felicidade dos outros nos é sempre dolorosa.

Estar feliz com um horizonte imaginário? Sou louco? Sim, a loucura nem sempre deve ser interpretada como doença ou como qualidade negativa. Loucura, às vezes, é necessária. Talvez a loucura traga também felicidade. Talvez a dor seja estarmos impregnados do mundo material na sua frágil realidade.

O meu pensamento voa, como um albatroz no mar. Flutua como uma pena na tempestade ou como uma flor na brisa primaveril. Basta pensar e já estou longe de mim, de onde estou, e do que sou!

Pensando, eu me sinto perto de tudo e longe do nada da minha pseudo-solidão humana. Ao pensar, sou livre e me sinto em movimento, absorvendo o universo exterior a minha volta.

E toda essa filosofia ou psicologia surge de elucubrações de um sujeito qualquer em meio a um início de sono. São apenas reflexões de uma mente em busca de espaços e explorando seus limites, e isso quando inicia o seu lento processo de adormecimento.

O pensamento é livre e é o recanto mais íntimo da liberdade humana. No pensamento, o homem pode ser aquilo que ele quiser ser. Não existem regras que ele (homem) não possa romper quando pensa, porque o seu pensamento é o seu universo. Nada interfere nele.

Penso e, disso, concluo: Sou livre.

O pensamento é uma ave ligeira que atravessa mares, rios e montanhas, mas que sempre retorna ao seu ninho. Ele também pode atravessar a linha imaginária do Tempo e procurar imagens de um passado longínquo nos arquivos da memória ou usar o artifício da imaginação para criar cenas de um futuro belo e promissor!

O que pensamento humano não pode? O que a imaginação humana não consegue criar?

Tanto se diz e se fala sobre o universo exterior. O homem busca explorar as fronteiras do espaço e os limites do seu corpo, planejando viagens a outros planetas, voando pelos ares ou mergulhando em águas profundas. Mas, tão pouco se diz sobre a busca do universo infinito existente no interior da mente humana, no interior do homem.

Em nossa mente existem recantos paradisíacos, cheios de doçura e beleza, paisagens calmas e sóbrias, desertos áridos, oceanos profundos e mares tempestuosos, vales sombrios e lúgubres, e toda a sorte de imagens, sons, odores e sensações. Há espaço para a dor e para a felicidade. Encontramos lá a amizade, o amor, o desejo, mas também o sofrimento, as culpas, a autocrítica e a condenação.

Vivemos na superfície desse universo, nadando e respirando, mas com muito medo de mergulhar nas profundezas. Poucos descem às grandes profundidades e raros gostam dessa região inexplorada e aparentemente inóspita. A ampla maioria sequer conhece que embaixo da sua consciência racional e sensual existe todo um universo. Ao mergulharmos nele nos sentimos transportados para outros níveis de autoconhecimento, para novos caminhos e novas certezas.

O som torturante do relógio traz de novo até mim a realidade fenomênica. Mas, até quando este mundo material exterior é real e até quando é uma projeção, um sonho? Ou será que tudo sempre será um eterno sonho, que se repete?

Será a matéria real? Só a temos por real porque a sentimos e a concebemos dentro de conceitos lingüísticos, históricos, filosóficos e científicos, desenvolvidos e fixados na nossa “tradição mental humana”.

Pensamentos. Pensamentos. Minha mente flutua na suave aragem noturna. Até onde um pensamento lógico e perscrutador como o meu consegue indagar? Não há limites. Os limites do meu pensamento são os limites do meu conhecimento, do meu raciocínio e da minha lógica.

Não sou filósofo! Não sou psicólogo! Não sou médico! Meu pensamento não precisa de rótulos, diplomas, congratulações, encômios, títulos, platéias, reconhecimento atual ou póstumo e popularidade. Apenas penso, logo sou livre, logo existo, sinto e vivo, logo busco meu próprio universo.

Apenas penso e o meu pensar me liberta. E, aos poucos, o meu próprio universo interior surge perante mim!

Pensar muito entorpece. O sono começou sua longa luta para me dominar e vencer. E certamente o fará. Resta a mim a doce esperança de uma noite com sonhos suaves.

Despeço-me.

domingo, 30 de novembro de 2008

Yehudi Menuhin tocando o "Moto Perpétuo" de Paganini - 1947




O compositor: Nicoló Paganini (1782 - 1840) é provavelmente o maior gênio do violino na história da música. Além de ter sido um grande virtuose (seu virtuosismo revolucionou a linguagem do instrumento), ele foi também um grande compositor e compôs várias obras basimente para esse instrumento, entre elas 6 concertos para violino e orquestra e 24 caprichos (capricci) para violino solo. A influência da obra de Paganini é tão grande que podemos considerar os dois primeiros concertos para violino, os 24 capricci, e o Moto Perpétuo, opus 11 como uma espécie de "Novo Testamento" para todos os violinistas posteriores (o "Antigo Testamento" seriam as Sonatas e Partitas de Bach)

Pretendo, futuramente, postar mais sobre ele, incluindo sua biografia, obras e principais gravações. Por ora, sugiro a leitura de alguns sites na internet:




(em português)




(em inglês)


O intérprete: "Lord" Yehudi Menuhim of Stoke d’Abernon ou (1916 -1999) nasceu em Nova York, EUA, mas permaneceu a maior parte da carreira no Reino Unido, tendo se naturalizado suiço em 1970 e inglês em 1985. Foi um dos maiores violinistas do século XX e é um dos grandes exemplos de uma longa tradição de escepcionais violinistas de origem judaica (como Joseph Joachim, Frtiz Kreisler, Jascha Heifetz, David Oistrah, Nathan Milstein, Isaac Stern, Pinchas Zukermann, Joshua Bell, Gidon Kremer, Schlomo Mintz, Michael Rabin, Vladimir Spikanov, Maxim Vengerov e Itzhak Perlman) e, na minha modestíssima opinião, um dos três maiores violinistas do século passado (os outros dois seriam Kreisler e Heifetz).
Boas informações sobre sua carreira podem ser obtidas aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Yehudi_Menuhin


A obra: O Moto Perpetuo, opus 11, é um desafio não apenas para violinistas, mas também para outros instrumentistas. A melodia da composição é formada por uma sequência extremamente longa de semicolcheias, sem pausas, sem notas longas e sem descanso – e o andamento é bem rápido (145 bpm). A qualidade que mais se desenvolve no estudo de Moto Perpetuo é a resistência, pois qualquer descuido ou desconcentração pode levar ao erro e à perda da sequência da melodia.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Giuseppe Di Stefano cantando "Salut! Demaure chaste et pure" da "Faust" de Charles Gounoud

O Tenor: Giuseppe Di Stefano (1921 - 2008), é, na minha modestíssima opinião, um dos três maiores tenores dos Séculos XX e XXI (os outros dois são Enrico Caruso e Beniamino Gigli). Ele ficou conhecido principalmente pelas óperas em que atuou e gravou juntamente com Maria Callas e Titto Gobbi (entre 1951 e 1957, formando, assim, o trio - tenor/soprano/barítono - mais importante da história da ópera) e pelo belo timbre da sua voz (é considerado por muitos como o dono da mais bela voz do canto lírico).

Di Stefano ficou conhecido pela sua dicção perfeita em italiano e francês (talvez a melhor dicção entre os grandes tenores), pela capacidade quase inigualável para fazer "pianissimos" e "diminuendos", pela emoção que colocava em cada nota (a capacidade que ele tinha para transimitir emoção somente é igualada por Caruso, Gigli, Del Monaco, Lanza e outros raríssimos nomes), pela sua notável qualidade como ator (um grande maestro italiano, Victor De Sabata, o igualava aos maiores atores de teatro italianos), pela forma natural como ele cantava (Di Stefano sempre defendeu que o cantor de ópera deveria "cantar como se estivesse falando", ou seja, cantar com a mesma naturalidade como se estivesse apenas conversando. E ele levava isso muito seriamente e até às últimas consequências), pelo seu "dó de peito" (o dó agudo, a nota mais aguda da escala normal de um tenor) - que era algo único na história da ópera - e pela sua belíssima voz, que era uma das vozes mais puras de tenor que o mundo já ouviu até hoje.

Pippo (apelido pelo qual ele ficou conhecido) nasceu em 24 de julho de 1921 em Mota Santa Anastasia, um vilarejo perto de Catania, na Sicilia, Itália. Era filho de um "carabineri" e de uma costureira. Logo cedo foi estudar em um colégio jesuíta em Milão, onde inicialmente sentiu vocação para o ofício religioso. Contudo, percebendo a bela voz que tinha, começou a ter aulas de canto. Inicialmente ele cantou em dois coros masculinos em Milão e se apresentou em dois concursos de canto (em Milão e em Florença) em 1938 e ganhou ambos. Também se apresentou em cafés, restaurantes (Odeon, em Milão) e cinemas (Cristallo, Milão), onde cantava antes da projeção dos filmes, sempre oscilando entre o repertório operístico, canções napolitanas e os últimos hits de músicas para dançar. Nos anos seguintes (1938-1940), ele cantou no coro do La Scala em Milão, como tenor. Em 1940, ele passou a ter aulas com um obscuro barítono, Luigi Montesano, que viria a ser seu mestre e do qual sempre viria a falar com o mais profundo respeito.

Giuseppe Di Stefano começou sua carreira efetivamente depois do inicio da Segunda Guerra Mundial. Ele foi afastado do serviço militar por problemas respiratórios. E, como só sabia cantar, passou a fazê-lo dentro e fora dos campos militares, ficando famoso em Milão sob o pseudônimo de Nino Florio. Quando os alemães chegaram à Lombardia, em 1943, ele fugiu para a Suíça, onde cantou em campos de refugiados. Na Suiça, ele intepretou na Radio Suisse Romande, em Lausanne, trechos da "Elixir D'amore" de Gaetano Donizetti e "Il Tabarro" de Giácomo Puccini, bem como canções italianas. Em Zurique, Di Stefano chegou a gravar músicas italianas pela EMI (1944).

Em 1945 ele retorna para a Itália e para Milão e retoma as aulas com Montesano. Em 1946 Di Stefano grava novamente canções para a EMI, ainda sob o pseudônimo de Nino Florio. Seu "debut" profissional veio a ocorrer em 20 de abril de 1946, em Reggio Emilia, na ópera "Manon" de Jules Massenet, intepretando "Des Grieux". Sua ascenção como tenor foi meteórica: em 1946 ele cantou em várias cidades do norte da Itália (Bolonha, Ravenna, Veneza); ainda em 1946 ele já fazia seu "debut" internacional no Liceu de Barcelona, na Espanha; em 1947 ele debuta no Scala de Milão também como "Des Grieux" na Manon de Jules Massenet e em fevereiro de 1948 ele se apresenta pela primeira vez no Metropolitan de Nova York, como o "Duque de Mântua" na ópera "Rigoleto" de Giuseppe Verdi. Resumindo: com apenas dois anos de carreira, ele já havia cantado nas duas maiores casas de ópera do mundo. Ele se tornou a sensação lírica do Metropolitan de Nova York entre 1948 e 1952 (nesse período ele esteve no MET em mais de 100 apresentações). Esse período áureo só foi interrompido, apesar da imensa popularidade alcançada por ele nessa época, em virtude de uma divergência entre o tenor e os diretores do Metropolitan (especialmente com Rudolph Bing), que gerou até uma disputa judicial que acabou fazendo com que o Metropolitan o aceitasse para a temporada de 1955/1956..

Em 1951, houve o encontro entre Giuseppe Di Stefano, a maravilhosa soprano grega Maria Callas e o barítono Titto Gobbi. Isso ocorreu aqui no Brasil, no Teatro Municipal de São Paulo em uma apresentação da "La Traviata" de Giuseppe Verdi. Em 1952 houve outra noite espetacular e memorável com Callas e Di Stefano se apresentando na "I Puritani" de Vicenzo Bellini. No Natal do mesmo ano o par voltou ao Scalla de Milão para cantar "La Gioconda" de Amilcare Ponchieli. Esse "trio" (Di Stefano/Callas/Gobbi) iria se tornar o mais importante trio de tenor, soprano e barítono do século XX e provavelmente da história da ópera. A harmonia e o entrosamento entre eles era quase mágico e os três tinham as mesmas características como cantores de ópera.

Di Stefano, Callas e Gobbi gravaram 10 óperas juntos e todas essas gravações são referências até hoje. Destacamos aqui as excelentes gravações da Tosca de Giácomo Puccini em 1953, da Lucia de Lamemoor de Gaetano Donizetti também de 1953, da I Pagliacci de Ruggero Leoncavallo de 1954, Un Ballo in Maschera de Giuseppe Verdi de 1956 e da Manon Lescault de Giácomo Puccini em 1957.

A partir de 1955, Di Stefano decide mudar de repertório de forma a interpretar papéis destinados a um tenor de tessitura mais grave e pesada (tenor lírico-spinto). A partir de 1955, Giuseppe Di Stefano passou a cantar, com freqüência, óperas que não eram adequadas à sua voz de tenor lírico, como Carmen de Georges Bizet (como D. José), Il Trovatore de Giuseppe Verdi (como Manrico), Aida também de Giuseppe Verdi (como Radamés), Íris de Piero Mascagni (como Osaka), La Forza del Destino de Giuseppe Verdi (como D. Alvaro), Turandot de Giacomo Puccini (como Calaf) e Andrea Chenier (como Andrea Chenier) de Umberto Giordano.

A partir de 1959, o grande tenor começou a ter sérios problemas com a voz. Não existe consenso sobre quais foram os reais motivos do seu declínio vocal. Alguns afirmam que Di Stefano usava uma técnica equivocada (ele não cobria corretamente as notas do passagio médio-agudo); outros defendem que o problema foi a mudança prematura de repertório; há ainda a tese defendida pelo próprio Di Stefano sobre uma doença respiratória - asma - que ele teria adquirido em um apartamento que ele possuia em Milão em meados da década de 50. O que parece mais razoável é que tenha havido um conjunto de fatores: a técnica equivocada, a mudança do repertório, a doença respiratória, a personalidade do tenor (como já disse outro grande tenor, Mario Del Monaco, Giuseppe Di Stefano tinha um temperamento dramático e um "instrumento" lírico), sua maneira de viver (Di Stefano bebia, fumava e jogava), a ênfase que ele dava à dicção (o que exigia muito da voz), e outros fatores que poderiam também ser acrescentados.

Os problemas vocais já eram perceptíveis desde 1959, mas ficaram mais evidentes em 1961, quando sua interpretação de Mário Cavaradossi na Tosca de Giácomo Puccini foi mal recebida pelo público do Covent Garden. Em 1963, ele retornaria ao mesmo Covent Garden e mal conseguiria terminar o primeiro ato da ópera La Bohéme de Puccini. Nessa oportunidade, ele foi substituído por um tenor que o tinha como ídolo, um jovem cantor italiano muito promissor que havia debutado dois anos antes. Seu nome era Luciano Pavarotti.

Em meados da década de 60, Di Stefano reduziu suas apresentações a recitais e concertos. Cantou com certa freqüência em Viena entre 1964 e 1965. Em 1964 tentou cantar Rienzi de Richard Wagner e até que se saiu bem, mas uma nova montagem da ópera acabou sendo cancelada em Buenos Aires em 1965. Em 1966, com a voz já muito prejudicada, Di Stefano cantou Otello de Giuseppe Verdi em Pasadena, Estados Unidos, junto com seu antigo amigo, Titto Gobbi, mas a apresentação não foi bem recebida. Di Stefano continuava a ser o mesmo grande ator que sempre fora, mas sua voz já não era mais a maravilha dos anos 40 e 50. Em 1967 ele teve algum sucesso com a ópera "L'incoronazione di Poppea" de Cláudio Monteverdi e fez uma tournée pela Alemanha Estados Unidos, Canadá e Áustria com a opereta Das's Land des Lächelns de Franz Lehar.

Entre 1961 e 1964, Di Stefano fez várias e inestimáveis gravações de canções napolitanas. Apesar de sua voz não conseguir mais cantar óperas inteiras, ele conseguia cantar canções com quase a mesma voz dos anos 50. Destaco aqui: "Lacrime Napulitane" (1964), "Musica Proibita" (1961), "Core N'grato" (1964), "Tu ca nun chiagne" (1964), e "Rondine al nido" (1963).

Nas décadas seguintes, as apresentações do tenor siciliano se tornariam raras. Em 1973, Di Stefano e Callas fizeram uma tournée que foi sucesso de público, mas severamente atacada por críticos. Não era para menos, ambos estavam com suas vozes bem prejudicadas. Em 1974, uma nova tournée acabou sendo cancelada. Di Stefano voltaria aos palcos em raras ocosiões. Em 1992, Di Stefano se despidiria dos palcos como Altoum, o velho imperador da ópera Turandot de Puccini, em uma apresentação nas Termas de Caracala, em Roma. A última presença do grande tenor no palco foi em 1993, no Festival da Rádio Francesa de Montpellier, onde ele foi o "narrador" (parte não cantada da ópera) na ópera "Le Villi" de Giácomo Puccini.

Di Stefano nunca se afastou completamente do mundo da ópera. Ele se tornou professor de canto e foi presença constante (juntamente com Franco Corelli, Renata Tebaldi, Giulieta Simionato) em juris de diversos concursos de canto pelo mundo. Em 2004, o tenor siciliano sofreu um assalto em sua residência no Quênia, tendo sido gravemente agredido. Acabou ficando em coma em um hospital em Milão onde acabou falecendo em março de 2008, aos 86 anos de idade.

Giuseppe Di Stefano foi um tenor muito polêmico e controvertido. Foi ídolo de Luciano Pavarotti (o grande tenor de Módena já declarou sua admiração em várias ocasiões) e José Carreras (o tenor catalão admirava tanto Giuseppe Di Stefano que incidiu praticamente no mesmo erro de técnica vocal: ele também cantava as notas abertas e sem cobertura), e tinha também a admiração das sopranos Renata Tebaldi, Maria Callas, da mezzo-soprano Giulieta Simionato, dos tenores Mario Del Monaco ("o melhor tenor lírico que apareceu depois do grande Gigli") e Jussi Bjoerling, dos maestros De Sabatta e Toscanini. Mas, Pippo foi sempre alvo dos críticos. Sua forma de cantar (emitindo as notas sempre MUITO abertas e sem cobri-las adequadamente) sempre fez com que se argumentasse que sua técnica era errônea ou fraca. Mas, para o tenor siciliano o que importava era transmitir emoção e ser o mais natural possível (daí a ênfase na dicção e na naturalidade ao cantar), para que ele "cantasse como se estivesse falando". A técnica não era exatamente a sua prioridade. Di Stefano era um artista e não um técnico!

Música é essencialmente emoção. E a Ópera é a mais básica de todas as emoções. Giuseppe Di Stefano foi, provavelmente, o mais expressivo tenor a se apresentar e gravar óperas. Amor, ódio, ciúme, desespero, tudo era comunicado por ele através do seu canto, e sempre com a maior passionalidade. Quando ele estava em seus melhores dias e cantava bem determinado trecho, a versão de qualquer outro tenor da mesma parte pareceria, no mínimo, "morna". O melhor exemplo dessa expressividade é o final da ópera I Pagliacci de Ruggero Leoncavallo quando Canio, depois de passar todo o segundo ato tentando descobrir quem era o amante da esposa, Nedda, consegue saber quem é e diz ao amante, Silvio, "Ah, sei tu" (Ah, és tu!!). Di Stefano canta esse verso com tal ferocidade e satisfação, que fica claro que o personagem está descarregando toda a adrenalina da busca pelo nome do amante naquela simples expressão. Depois de ouvir Di Stefano cantando esse trecho, se você for escutar a versão de qualquer outro tenor, pensará que ele está chamando números de bingo.


O compositor: Neste post eu estou dando destaque ao tenor. Farei um post especificamente sobre o grande Charles Gounod. Mas, por ora, quem quiser saber mais sobre ele acesse aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Charles_Gounod (em inglês) ou aqui http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Gounod (em português). Ou ainda, acesse aqui: http://archive.operainfo.org/broadcast/composer.cgi?id=22&language=4

A Ópera: Quem quiser saber a história completa da ópera Faust de Charles Gounod, pode acessar aqui: http://archive.operainfo.org/broadcast/operaSynopsis.cgi?id=22&language=4

O video: A ária "Salut! Demaure Chaste et pure" ficou bastante conhecida na voz de Giuseppe Di Stefano por causa de algo que até hoje só ele conseguiu fazer com tal perfeição. Trata-se da emissão de um Dó (a nota mais aguda da escala normal de um tenor) emitido por mais de 10 segundos e seguido de um impressionante diminuendo. Isso ocorre bem no final da ária e impressionou muita gente, incluindo o grande tenor sueco Jussi Bjoerling.

O video inclui ainda a partitura da ária. A gravação (só áudio) é de 1950 (época em que o tenor vivia seus anos dourados) e é, seguramente, uma das mais impressioantes gravações feitas por um tenor ao vivo.

Eis o video





domingo, 14 de setembro de 2008

A DINASTIA GUPTA

A DINASTIA GUPTA

O Império Gupta foi governado por membros da dinastia Gupta em torno de 320 a 550 DC e dominou a maior parte do norte da Índia, parte do leste do Paquistão e a parte ocidental do que é hoje a Índia e Bangladesh. O período do império Gupta pode ser considerado como a "Idade de Ouro" da ciência, matemática, astronomia, religião, e filosofia indiana. É considerado como o período clássico da história indiana.

Historiadores colocam a dinastia Gupta, no mesmo nível da Dinastia Han e Dinastia Tang da China e do Império Romano (Dinastia dos Antoninos), como um modelo de civilização clássica. A capital dos Guptas foi Pataliputra, hoje Patna, no Estado indiano de Bihar.

A origem do Guptas está envolta em obscuridade. O viajante chinês I-Tsing (Hieun-Tsang) fornece as primeiras provas do reino Gupta em Magadha. Ele foi para a Índia em 672 dC e ouviu falar de Maharaja Sri-Gupta "que construiu um templo chinês de peregrinos perto Mrigasikhavana". I-Tsing dá a data para este fato, simplesmente, como "quinhentos anos antes". Isso não condiz com outras fontes e, portanto, podemos concluir que I-Tsing era um mero adivinho.

A data mais provável para o reinado de Sri-Gupta é c. 240-280 dC. Seu sucessor Ghatotkacha governou provavelmente a partir de c. 280-319 dC. Em contraste com o seu sucessor, ele é também referido nas inscrições como "Maharaja".

HISTÓRIA

Através do quarto século DC, um grande tumulto político e militar destruiu o Império dos Kushana, no norte, e muitos reinos no Sul da Índia. Nesta conjuntura, a Índia foi invadida por uma série de povos estrangeiros e bárbaros ou Mlechchhas a partir da fronteira noroeste até a região da Ásia Central. Esse fato sinalizou o aparecimento de um líder, Chandragupta I. Chandragupta combateu com sucesso a invasão estrangeira e foi o primeiro grande imperador da dinastia Gupta, que governaria a India nos próximos 300 anos, trazendo a maior era de prosperidade na história indiana.

Srigupta I (270-290 dC) que foi talvez um pequeno governante de Magadha (moderna Bihar), fundou a dinastia Gupta tendo Patliputra ou Patna como sua capital. Ele e seu filho Ghatotkacha (290-305 dC) deixaram muito poucas evidências de seus governos.

Ghatotkacha (c. 280-319 dC), teve um filho chamado ChandraGupta I. (Não deve ser confundido com Chandragupta Máuria (340-293 aC), fundador do Império Mauria.).ChandraGupta I casou-se com uma integrante da familia Lichchhavi, que eram governantes de Mithila, principal potência em Magadha. Seu casamento com a princesa Lichchhavi Kumaradevi lhe trouxe um enorme poder, recursos e prestígio. Ele aproveitou a situação e ocupou todo o Vale Fértil do Ganges. Chandragupta I assumiu o título de Maharajadhiraja (imperador) em sua coroação formal. Ele estabeleceu seu reino em uma área que ia do Rio Ganga (Rio Ganges) até Prayaga (Allahabad, hoje em dia).

Samudragupta (335-380 DC), sucedeu seu pai (ChandraGupta I) em 335 DC, e reinou por cerca de 45 anos, até sua morte em 380 DC. Ele conquistou os reinos de Shichchhatra e Padmavati no início de seu reinado. Em seguida, atacou a Malwas, o Yaudheyas, o Arjunayanas, o Maduras e os Abhiras, e todas as tribos que estavam na área. Até a sua morte em 380 DC, ele tinha mais de vinte reinos incorporados ao seu domínio. Seu Estado foi alargado, indo dos Himalaias até ao rio Narmada e do Bramaputra até o Yamuna. Ele outorgou a si mesmo os títulos de o Rei dos Reis e de Monarca dos Mundos. Ele é considerado o Napoleão da Índia. Sua maior conquista pode ser descrita como a unificação política da maior parte do norte da Índia e com um impressionante poder.

Samudragupta não foi apenas um talentoso líder militar, mas também um grande patrono da arte e da literatura. Intelectuais importantes presentes em sua corte foram Harishena, Vasubandhu e Asanga. Ele mesmo foi poeta e músico. Ele era um firme crente no Hinduísmo e é conhecido por ter adorado o deus Vishnu. Ele foi compreensivo com outras religiões e permitiu o rei budista do Sri Lanka construir um mosteiro em Bodh Gaya.

ChandraGupta II (380 - 413 DC), o Sol do Poder (Vikramaditya), governou de 380 até 413. Vikramaditya é o lendário imperador da Índia. Mais histórias / lendas são associados com ele do que qualquer outro governante da Índia. Sua filha Prabhavatigupta foi casada com Rudrasena II, o Vakataka rei do Deccan (esta filha foi forçada a se casar pelo o pai). Apenas pouco menos bem sucedido do que seu pai, ChandraGupta II expandiu seu domínio para o oeste, derrotando o Saka Western Kshatrapas de Malwa, Gujarat e Saurashtra em uma campanha que durou até 409, mas com a derrota do seu principal oponente. Rudrasimha III, em 395 DC e com o esmagamento da supremacia de Bengala (Vanga). Isso fez extender o seu controle de costa-a-costa, estabeleceu uma segunda (comércio) capital em Ujjain e foi o ponto alto do império.

Apesar da criação do império por meio da guerra, o reinado é lembrado por seu estilo muito influente na arte, literatura, cultura e ciência hindú, especialmente durante o reinado de ChandraGupta II. Algumas excelentes obras de arte hindu como os painéis em Dashavatara o Templo em Deogarh servem para ilustrar a magnificência da arte Gupta. Acima de tudo, foi a síntese dos elementos sagrado e sexual que deram o seu sabor distintivo à arte Gupta . Durante este período, os Guptas eram defensores do Budismo florescente e das culturas Jainistas, e, por essa razão, há também uma longa história de um período de arte Gupta não-hindu. Em particular, o período de arte Gupta budista foi influente na maior parte do Leste e Sudeste da Ásia. O reinado de Vikramaditya foi talvez o mais próspero e progressista em toda a história indiana. O contemporâneo e monge budista chinês, o viajante Fa-hein, ficou impressionado com a prosperidade durante o reinado Gupta. Ele admirava os palácios reais e casas para a dispensação de caridade e falou muito do sistema de governo. Grande parte dos avanços da dinastia Gupta foi relatado por ele no seu diário e publicado postumamente.

A corte de Chandragupta II foi composta por membros ainda mais ilustres do que os de seus antecessores e isso se deu pelo fato de possuir a Navaratna (Nove Jóias), um grupo de nove mestres em artes literárias. Entre estes homens estava o imortal Kalidasa cujas obras empalideceram as obras literárias de muitos outros gênios, e não apenas em sua própria época mas, ao longo dos séculos vindouros. Kalidasa foi particularmente conhecido por sua grande exploração do elemento sringara (erótico) em seus versos.

No Quarto século DC o poeta sânscrito Kalidasa creditou a Chandragupta II, "Vikramaditya", o fato de ter conquistado cerca de vinte e um reinos, tanto dentro como fora Índia. Após terminar a sua campanha no Leste, Sul e Oeste da Índia, Vikramaditya (ChandraGupta II) atacou o norte, subjugou os Parasikas (persas) e, em seguida, as tribos dos Hunos e os Kambojas, localizadas no oeste e leste do Vale Oxus, respectivamente. Posteriormente, o glorioso rei prossegue em todo o Himalaia e reduziu os Kinnaras, Kiratas, e outros povos.
Vikramaditya foi sucedido por seu filho Kumargupta I (415 - 455 DC). Ele manteve as realizações do seu vasto império de antepassados, que cobria a maior parte do sul da Índia, exceto o que corresponde a quatro estados da Índia atual. Mais tarde ele também realizou o Ashwamedha Yagna e proclamou-se como Chakrawarti, rei de todos os reis. Kumargupta também foi um grande patrono das artes e da cultura; existem provas que ele instalara um colégio de belas artes na grande e antiga universidade em Nalanda, que floresceu durante o 5 º a 12 º século dC. Perto do final do seu reinado uma tribo no vale do Narmada, o Pushyamitras, cresceu a ponto de poder de ameaçar o império.

Skandagupta (455-467 DC) é geralmente considerado o último dos grandes governantes da dinastia Gupta. Ele derrotou a ameaça Pushyamitra, mas então foi confrontado com os invasores Hephthalites ou "Hunos Brancos", conhecidos na Índia como o Hunos, a partir do noroeste. Ele repele o ataque dos Hunos em c. 477 DC, mas os custos da guerra arruinaram o império e contribuíram para o seu declínio. Skandagupta morreu em 487 e foi sucedido por seu filho Narasimhagupta Baladitya (467-473 DC).

Apesar dos esforços heróicos dos SkandaGupta, o Império Gupta não sobreviveu ao longo choque que recebeu das invasão dos Hunos Brancos e da revolta interna dos Pushyamitras, embora houvesse algum tipo de unidade até o reinado do último rei gupta no 6 º século dC.

Narasimhagupta (467-473 DC) foi seguido por Kumaragupta II (473-476 DC) e Buddhagupta (476-495? DC). Em 480 o rei Hephthalite (Huno Branco) Toramana rompeu através das defesas Gupta, no noroeste, e grande parte do império foi conquistado pelo Hunos em 500. O império se desintegrou na época das investidas de Toramana e seu sucessor, Mihirakula; Os Hunos conquistaram várias províncias do império, incluindo Malwa, Gujarat, e Thanesar, destruidas longe do controle das dinastias locais. Ao que se extrai a partir de inscrições Guptas, apesar de seu poder ter diminuído muito, eles continuam a resistir aos Hunos, A sucessão Guptas no século sexto não é totalmente clara, mas o último governante da dinastia reconhecido foi Vishnugupta, tendo governando de 540 a 550 DC.

O LEGADO GUPTA

Os Reis da dinastia Gupta foram os grandes patronos de arte, cultura, línguas, matemática e ciências. Muitos dos melhores quadros da antiga Índia foram criados durante o período Gupta (320-600 dC), O melhor exemplo são os murais em Ajanta. Os murais coloridos e vibrantes em Ajanta são famosos não só para se observar meticulosamente detalhes da natureza e da paisagem urbana, incluindo arquitetura e mobiliário, vestuário e ornamentos elegantes e sedutores, mas também pelos retratos de uma variedade de personagens humanos, expressões e humor. A vida rica e sensual da corte de Vakataka e da Índia Gupta, em geral é exibida de forma realista nestes murais.

A época Gupta (329-650 dC), foi também era dourada de arte budista. A unidade política da Índia Gupta conseguida pelos imperadores, por sua vez, iniciou uma unidade artística que transcendeu fronteiras regionais. Normas artisticas uniformes entraram em vigor e foram fixadas principalmente por oficinas em Mathura e Sarnath. Mathura e Sarnath produziram algumas das melhores espécies de arte budista. O estilo Gupta de arte foi marcado por uma maestria na execução e uma majestosa serenidade na expressão e acabou se espalhando por outros países de arte budista e influenciou grandemente toda a Ásia.

O "Ferro de Meharulli" localizado em Pilar, Nova Deli é outro bom exemplo das grandes conquistas do reinado Gupta. Apesar de ter 1600 anos, este ainda está de pé e é um Pilar de Ferro, sem qualquer ferrugem. Alguns historiadores acreditam que este pilar foi erguido por Chandragupta II, Vikramaditya. O maior poeta sânscrito, Kalidasa, que escreveu Meghdoot e Kumarsanhita, estava na corte Vikramaditya. Shakuntalum, as obras de Kalidasa exemplificam a arte literária deste período. O Panchatantra, uma coleção de fábulas popular foi outro trabalho. A Sankrit Dramas e Mrichchhakatika Mudra Rakshasa foram escritos durante o reinado Gupta. Foi também nesse período que Vatsayana escreveu o famoso KAMA SUTRA. O celebrado astrônomo Aryabhatta, que calculou o valor correto de pi em 499 dC viveu neste período. Ele também calculou o comprimento do ano solar como 365,358 dias, e mais tarde postula que a Terra era uma esfera, girando sobre seu próprio eixo e gira em torno do Sol, bem como a causa exata da eclipses, fazendo também descobertas sobre os planetas do sistema solar e sobre a gravidade. Varahamira mostrou a importância do sistema decimal no tratado Bhrihatasamhita. O sistema numeral indiano, ou seja, o sistema decimal (que está atualmente em uso) é por vezes erroneamente atribuído ao árabes, que tomaram esse sistema da Índia e deram à Europa onde substituiu o sistema romano. A lei de livros Bruhaspati, Narada e muitas seções de Puranas (escrituras em sânscrito) também foram escritas neste período glorioso. A estrutura administrativa durante o período Gupta foi excepcionalmente boa, apesar da extensão grande império. Na administração Gupta, os governadores das províncias eram mais independentes em relação ao Mauryans. O comércio com o império romano declinou após o século III dC. Mercadores indianos começaram a depender mais fortemente do comércio com o Sudeste Asiático Em vez do ouro romano, eram os países do Sudeste Asiático que alimentavam a necessidade indiana de metais preciosos.

Em medicina, os Guptas foram notáveis para o seu estabelecimento livre de clientelismo e de hospitais. E embora o progresso em matéria de fisiologia e biologia foi dificultado por inibições religiosas contra o contacto com cadáveres, o que desencorajou dissecção e anatomia, médicos indianos foram brilhantes na farmacopeia, cesariana, fixação óssea, e transplantes. Com efeito os avanços da medicina hindu foram adotadas em breve as mundos árabe e ocidental. Infelizmente, muito poucos monumentos construídos durante a reinará Gupta sobreviver hoje. Exemplos de arquitetura Gupta são encontrados no templo Vaishnavite Tigawa em Jabalpur (no estado de Madhya Pradesh) construído em 415 dC e um outro templo em Deogarh próximo a Jhansi construído em 510 dC. Bhita no estado Uttar Pradesh tem um número de templos antigos Gupta,
a maior parte estão em ruínas.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Luciano Pavarotti (1935 - 2007) cantando "Ah, mes amis" da "La Fille du Regiment" de Gaetano Donizetti

O Tenor: Luciano Pavarotti (1935 - 2007) tenor italiano que ficou famoso por interpretar árias famosas como "Nessun Dorma" (da Turandot, de Giacomo Puccini) e canções napolitanas como "O Sole mio". Essa fama decorre essencialmente do seu carisma, do grande aparato publicitário que envolve sua imagem, da sua bela voz, e das grandes interpretações que ele fez nas décadas de 60 e 70. É certo que sua popularidade aumentou significativamente depois do grande sucesso da série de shows conhecida como "3 tenors in concert" que ele fez juntamente com Plácido Domingo e José Carreras em 1990 (em Roma, nas Termas de Caracala), em 1994 e em 1998, geralmente nas vésperas das finais das Copas do Mundo.

Mas, para os fãs da ópera as melhores interpretações do Pavarotti não são as canções napolitanas ou "Nessun Dorma". O grande tenor de Módena ficou famoso no mundo da ópera por seus papéis em óperas do belcanto italiano ou no repertório de tenor lírico. O tenor iniciou sua carreira em 1961, como Rodolfo na ópera La Bohéme de Puccini. Em 1963, fez seu "debut" internacional substituindo um dos seus ídolos, o tenor Giuseppe Di Stefano, na mesma La Bohéme no Covent Garnden em Londres. Sua carreira recebeu um grande empurrão quando passou a se apresentar com a magnífica soprano australiana Joan Sutherland (uma das grandes divas da segunda metade do século XX). Foram essas interpretações que deram a Pavarotti a fama que ele tem hoje. Depois, ele passou a cantar repertório mais pesado (inapropriado para a sua voz), mas sua fama passou a crecer vertiginosamente perante o grande público.

Um dos momentos mais importantes da carreira do Pavarotti foi quando cantou junto com Joan Sutherland a ópera "La Fille du Regiment" de Gaetano Donizetti, especialmente a ária "Ah, mes amis". Luciano Pavarotti ganhou o aplauso da crítica e das exigentes platéias de ópera quando cantou, precisa e perfeitamente, os nove difícies dós agudos (Dó5, o conhecido "dó de peito" ou o "high C" dos norte-americanos) da ária. Esse fato deu a ele o respeito dos crítidos e de todos aqueles que o consideravam como um tenor mediano. Foi essa ária que lançou Pavarotti ao sucesso internacional em 17 de fevereiro de 1972, numa apresentação do Metropolitan Ópera. Ele voltou ao palco dezessete vezes para receber aplausos depois de atingir os dós agudos sem demonstrar esforço algum.

Futuramente irei postar mais detalhes sobre a vida dele. Mas aqui tem um interessante resumo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Luciano_Pavarotti

O Compositor: Gaetano Donizetti (1797 - 1848), filho de um responsável de uma loja de penhores e de uma costureira, nasceu e morreu em Bergamo, Itália, como muitos de seus personagens, vítima da loucura. Donizetti adicionou uma urgência dramática, especialmente nos diálogos, aos estilo barroco antigo, conhecido como bel canto (caracterizado por linhas vocais longas e floreadas), que abriu caminho para Verdi e o verismo. Era fundamentalmente um melodista, como seus colegas Rossini e Bellini. Como resultado de sua admiração pelos mestres clássicos, Haydn e Mozart, desenvolveu um ouvido afiado para a orquestração - recatado, mas sensível - e para a formação dramática de peças com arranjo para diversas vozes e instrumentos junto com linhas sinfônicas. Extraordinariamente prolífico, Donizetti normalmente exigia demais de si mesmo, tentando não ficar para trás com as várias solicitações dos teatros líricos. Embora tenha composto um grande número de óperas, estimado em 70 obras, a constância e o vigor de sua inspiração lírica camuflam o fato de que muitas das suas criações eram feitas sob encomenda. A construção das cenas de Donizetti baseia-se em uma fórmula, mas uma fórmula que funciona e que ele preencheu com uma vida profunda e palpitante que, com freqüência, torna os personagens de seu repertório críveis.

Até o renascimento do bel canto, que se seguiu à II Guerra Mundial, Donizetti era conhecido principalmente como o compositor de uma tragédia, Lucia di Lammermoor, e uma comédia L'Elisir d'Amore (O elixir do amor). Atualmente estas obras são freqüentemente acompanhadas no repertório por outras de suas óperas, tanto sérias como cômicas. As tendências da categoria anterior para os assuntos pseudo-históricos, tão em voga naquela época, e a remota Inglaterra exerciam um fascínio especial sobre Donizetti: Anna Bolena, Maria St e Roberto Devereux, todos retratavam governantes ingleses e Elizabeth I aparece em duas de suas obras. Lucrezia Borgia, montada na Itália e La Favorita, montada na Espanha, deram um maior prosseguimento ao ficcionismo de pessoas que realmente existiram, um esporte popularizado por Sir Walter Scott, autor da novela A Noiva de Lammermoor, fonte de inspiração de Lucia.

A Ópera:

Personagens:
Marie (soprano) – A filha adotada pelo 21º regimento do exército francês. Ela está apaixonada por Tônio.
Marquesa de Berkenfield (soprano) – Um parente inesperado de Marie; ela deseja que Marie se case com um rico nobre alemão.
Duquesa de Krankentorp (soprano) – Mãe de um nobre alemão, o prometido de Marie.
Tônio (tenor) – Alistou-se no 21º regimento porque se apaixonou por Marie depois de evitar que ela caísse numa ravina.
Sargento Sulpice (baixo) – Sargento do exército francês, ele acolheu Marie no regimento, porém depois descobriu que ela é parente da Marquesa.
Hortênsio (baixo) – Mordomo da Marquesa.

Sinopse:
PRIMEIRO ATO. As montanhas tirolesas. Em caminho à Áustria, a amedrontada Marquesa de Berkenfield e seu mordomo, Hortênsio, interrompem sua jornada por causa de uma contenda. Quando a Marquesa escuta dos aldeãos que as tropas francesas bateram em retirada, ela critica a indelicadeza do povo francês. (“Pour une femme de mon nom”). O sargento do 21º regimento, Sulpice, assegura à todos que seus homens restaurarão a paz e ordem. Ele vem acompanhado de Marie, a mascote ou “filha” do regimento, adotada pelo sargento quando ainda era uma criança órfã. Quando Sulpice a questiona sobre um jovem com quem ela foi vista, ela conta que ele é um tirolês que certa vez salvou sua vida. Tropas do 21º regimento chegam com um prisioneiro: o mesmo Tônio que diz estar procurando por Marie. Ela entra e o salva. E enquanto ele celebra suas novas amizades, Marie canta o hino regimentar (“Chacun le sait”). Os soldados ordenam que Tônio os siga, mas ele escapa e regressa para declarar seu amor à Marie. Sulpice os surpreende e Marie precisa admitir para Tônio que ela somente pode se casar com um soldado do 21º regimento.

A marquesa de Berkenfield pede a Sulpice uma escolta para regressar a seu castelo. Ao escutar o nome Berkenfield, Sulpice lembra-se de uma carta que encontrou próximo à jovem Marie no campo de batalha. A Marquesa acaba admitindo ter conhecido o pai da garota e diz que Marie é a filha, há muito desaparecida, de sua irmã. A criança foi deixada aos cuidados da Marquesa, mas foi perdida. Chocada com a falta de fineza da garota, a Marquesa está determinada a dar uma educação apropriada à sua sobrinha e levá-la de volta ao castelo. Tônio se alista no exército para poder casar-se com Marie (“Ah, mes amis”). Mas ela deve deixar ambos o regimento e o homem a quem ama (“Il faut partir”).

SEGUNDO ATO. O castelo de Berkenfield. A Marquesa arranjou um casamento entre Marie e o Duque de Krakenthorp. Sulpice também está no castelo, recuperando-se de uma ferida, e deveria estar ajudando a Marquesa com seus planos. A Marquesa dá à Marie uma classe de canto, acompanhando-a no piano. Encorajada pelo Sulpice, Marie enfia frases do hino regimentar e a Marquesa fica de mau-humor (trio: “Le jour naissait dans la bocage”). Deixada à sós, Marie reflete sobre a insignificância do dinheiro e posição social (“Par le rang et l’opulence”). Ela escuta
soldados marchando à distância e fica feliz uma vez que todo o regimento marcha salão adentro. Tônio, Marie e Sulpice se reencontram. Tônio pede a mão de Marie. A Marquesa não se comove com a declaração do rapaz de que Marie é sua vida (“Pour me rapprocher de Marie”). Ela diz que sua sobrinha está comprometida à outro homem e dispensa a Tônio. A sós com Sulpice, a Marquesa confessa a verdade: Marie é sua própria filha ilegítima, a qual ela abandonou temendo desgraça social.

Hortênsio anuncia a chegada do cortejo de casamento, liderado pela mãe do noivo, a Duquesa de Krakenthorp. Marie se nega sair de seu quarto, mas Sulpice lhe revela que a Marquesa é sua mãe. Surpresa, a garota declara que não pode ir de encontro aos desejos de sua mãe e concorda em casar-se com um homem que não ama. Quando está prestes à assinar a licença de casamento, os soldados do 21º regimento, liderados por Tônio, invadem o recinto para resgatar sua “filha”. Os convidados ficam horrorizados ao descobrir que Marie era uma cantineira, mas mudam de opinião quando ela lhes revela que nunca poderia pagar a dívida que tem com os soldados. A Marquesa fica tão enternecida pela pureza do coração de sua filha que lhe concede permissão para casar-se com Tônio. Todos juntos celebram cantando “Salut à France”.

A ária: "La Fille du Régiment" é uma conhecida vitrina para verdadeiros atletas vocais. A ária de Tônio, “Ah! Mes amis!” contém nove dós na quinta oitava e é comumente conhecida entre tenores como o Monte Everest do bel canto.

Eis o video da ária (infelizmente só o áudio):

domingo, 24 de agosto de 2008

MIKA WALTARI (1908 - 1979)



Mika (Toimi) Waltari (1908 - 1979) foi grande um escritor finlandês que ficou muldialmente conhecido por escrever romances com enredos que se passavam em ambientes históricos (Antiguidade e Idade Média) e contendo uma impressionante riqueza de detalhes. Nos livros deste escritor escandinavo o leitor é transportado para outro tempo e lugar e tem a nítida sensação de estar vivendo aquele momento da História.

Mika Waltari nasceu em Helsinki, capital da Finlândia e perdeu seu pai, Toimi Armas Waltari, um pastor e professor luterano, quando tinha 5 anos de idade (em 1914). Na sua infância, presenciou a Guerra Civil Finlandesa na cidade. Na juventude, entrou na Universidade de Helsinki para estudar teologia, de acordo com os desejos da mãe, mas logo abandonou a teologia pela filosofia e literatura, graduando-se em 1929.

Enquanto estudava, contribuía para artigos em revistas e escrevia poesias e contos, sendo seu primeiro livro publicado em 1925.

Em 1927 foi para Parais onde escreveu um de seus maiores romances, "A grande ilusão", uma história de vida boêmia. Esta obra, em termos de estilo, é considerada o equivalente finlandês de trabalhos de escritores norte-americanos da Geração Perdida.


Waltari também foi membro de um movimento liberal de literatura chamado Tulenkantajat, até que sua visão política e social mudou mais tarde para ultra-conservadora. Casou em 1931 e teve uma filha, Satu, que também se tornou escritora.

Durante as décadas de 1930 e 1940, Waltari trabalhou bastante como a jornalista e crítico, escrevendo por um grande número de jornais e revistas e viajando por toda a Europa. Também foi diretor da revista "Suomen Kuvalehti".

Ao mesmo tempo, continuou escrevendo livros de vários gêneros, movendo-se facilmente de um estilo literário para outro.

Em 1945 foi publicada o seu primeiro e mais bem sucedido romance histórico, "O egípcio", que falava sobre a corrupção e valores humanos num mundo materialista justamente depois da Segunda Guerra Mundial. O livro se tornou um best-seller internacional, servindo de base para um filme de Hollywood do mesmo nome.


Waltari escreveu outras sete obras históricas, ambientadas em várias culturas antigas, como por exemplo "The dark angel", ambientada durante a queda de Constantinopla em 1453.

Nestas obras, Waltari dava bastante destaque ao seu pessimismo e também em duas histórias ambientadas no Império Romano, à sua convicção cristã. Ele se tornou membro da Academia Finlandesa em 1957 e recebeu título de doutor honorável em 1970 pela Universidade de Turku.

Waltari foi um dos mais prolíficos escritores da Finlândia. Foi o mais conhecido escritor finlandês e seus trabalhos foram traduzidos para mais de 40 idiomas.


De suas obras destacamos:

1- "O Egipcio", (Sinuhe egyptiläinen, no original), de 1945, que conta a vida do médico egípcio Sinhue na época do reinado do faraó Akhenaton (c. de 1362 AC - 1.333 AC). Mas, o autor não se restringe sua história ao Egito, pois Sinhue acaba viajando para a Babilônia e Creta, retornando, depois, ao Egito na época em que o faraó fez uma tentativa de mudar a religião egípcia (politeista) para um monoteismo baseado em Aton, o disco solar. Este é o livro mais famoso do autor, que serviu até de base para um filme de Hollywood.

2- "O Aventureiro" (Mikael Karvajalka, no original), de 1948, ambientado na Idade Média, conta a história de Mikhael Karvajalka, desde os seus primeiros anos em Abo (Finlândia), passando pela Europa Central (onde o autor narra eventos da Inquisição) e mostrando diversos elementos da Europa medieval.

3- "O Romano" (Ihmiskunnan viholliset, no original), de 1964, ambientado em Roma durante os reinados de Cláudio e Nero.

Maiores detalhes sobre a vida e obra deste escritor podem ser encontrados neste texto (em inglês): http://www.kirjasto.sci.fi/mwaltari.htm .

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Max Stirner (1806 - 1856)



Quando se fala em irracionalismo, ateismo, anarquismo e niilismo sempre são mencionados nomes como os de Schopenhauer e Nietzsche.
Mas alguns filósofos que exerceram grande influência e que têm grande importância para a história da filosofia são pouco comentados.
Johann Kaspar Schmidt, conhecido pelo pseudônimo Max Stirner (desenho ao lado, feito por Fiedrich Engels) é um desses filósofos muito pouco comentados e quase esquecidos, mas que influenciaram o pensamento da sua época.
Stirner ficou conhecido com a publicação, em 1844, do livro "O único e sua propriedade". Com essa obra, ele impressionou diversos filósofos da época e influenciou a obra de pensadores como Nietzche e Marx.
Aliás, Eduard von Hartmann, outro filósofo pouco comentado da época, chega a dizer que Nietzsche era um "plagiador" de Max Stirner. Ele ainda foi precursor das idéias anarquistas, o conhecido "Anarquismo Individualista".
Stirner, antes mesmo de Nietzsche, já combatia a moral cristã e pregava a "morte de Deus". A diferença é que Nietzsche tinha um estilo (fragmentário e obscuro, um pouco captado dos aforismos de Heráclito) e retórica (permeada de expressões agressivas e de efeito) muito mais sedutores que os textos de Stirner. Embora Nietzsche tenha feito muito mais barulho, as idéias de Max Stirner foram mais longe do que Nietzsche ousaria chegar!
Uma boa idéia sobre a relações de Stirner com seus contemporâneos e as influências do seu pensamento podem ser encontradas neste interessante texto: http://www.lsr-projekt.de/poly/ptinnuce.html

10º Aniversário do Festival de Verbier - 2003

O Festival de Verbier é um conhecido festival de música clássica que foi criado em 1994. Grandes estrelas da música erudita se apresentam todo ano em Verbier perante um público de mais de 40.000 pessoas. Maiores detalhes: http://www.verbierfestival.com/

Em 2003, comemorou-se o décimo aniversário do festival. Nessa oportunidade foi apresentado o Concerto para Quatro Pianos e Orquestra BWV 1065 de Johann Sebastian Bach (que originalmente é um concerto para quatro cravos, instrumento musical antecessor do piano).

Os quatro pianistas que tocaram nesse concerto são grandes estrelas do mundo da música clássica: James Levine (pianista e maestro americano, diretor musical do Metropolitan Opera House e da Orquestra Sinfônica de Boston), Martha Argerich (magnífica pianista argentina, pouco conhecida por sua notória aversão à imprensa e à publicidade), Mikhail V. Pletnev (grande pianista, regente e compositor russo) e Evgeny Kissin (impressionante pianista russo, um virtuose que toca desde os 10 anos de idade, e aos 17 já tocava o Concerto nº 01 para Piano e Orquestra de Tchaikovski com a poderosa Orquestra Filarmônica de Berlin sob a regência do grande Herbert von Karajan).

A orquestra que os acompanha não é uma orquestra comum. É formada também por grandes nomes do cenário musical: Gidon Kremer, Vadim Repin, Renaud Capuçon, Sarah Chang, Ilya Gringolts, Yuri Bashmet, Nobuko Imai, Christian Tetzlaff, Nikolaj Znaider, Dmitry Sitkovetsky, Mischa Maisky, Boris Pergamenschikow, Patrick de los Santos. Por exemplo, a sorridente violinista norte-americana Sarah Chang é uma instrumentista de fama internacional e muito premiada, tento tocado com os mais importantes maestros da atualidade como Simon Ratle e Zubin Metha. Podemos destacar também Mischa Maisky, grande violoncelista letoniano de fama mundial, premiado, e que chegou a ficar em um campo de trabalho na antiga união soviética por 18 meses o que fez com que ele fugisse para Israel e adotasse a cidadania israelense.

Eis o video do concerto: